quinta-feira, 25 de junho de 2015

“Imbecilistas” ou o pacto antiintelectual no facebook

Ana Cristina A. de Sousa*
Umberto Eco não poderia ter sido mais genial quando afirmou que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis, imbecis letrados... Imbecis letrados de todos os níveis incitam ódio e cultivam a ignorância dos leitores mais desavisados, pregando “verdades” sem qualquer fundamentação logicamente aceitável.

O imbecil não vê o outro, não o escuta, não tem interesse em aprender: ele só quer pregar falsas verdades que ele julga serem absolutas, em busca dos aplausos de outros bandos de imbecis. Autoritário, ele opina sobre tudo o que aparece e zomba de coisas sobre as quais não tem o menor conhecimento. Mais grave: zomba de quem empenhou seu tempo para construir conhecimento e que demonstra o quanto a complexidade das coisas não mora na superfície dos argumentos ocos e jogos ofensivos de palavra.
Dirck van Baburen, Prometeu acorrentado por Vulcano, com apoio de Mercúrio (1623).

O imbecil critica os “ólogos”, mas lhe falta a “logia”. Afinal, o imbecil não estuda; o imbecil não lê (com exceção de ‘memes’ de facebook); o imbecil não aprofunda. Ele vive na superficialidade dos valores fúteis vendidos para o consumo daqueles que não desenvolvem senso crítico efetivo sobre a realidade que lhes é apresentada. O imbecil zomba, desqualifica e ignora o conhecimento alheio, pois reconhecer que o outro tem algo a oferecer é reconhecer a sua própria superficialidade e ignorância sobre tudo o qual opina cheio de ventosa autoridade. É perder a Palavra... E sabemos o quanto o imbecil aprecia dominá-La em nome de algum ente estrategicamente especial (para ele): “Deus”, “Família”, “Povo”, “Propriedade”, “Lei”, “Ciência”, “Doutrina”, “Religião”, etc.

O imbecil não educa, professa... Dito isso, é possível entender também o motivo pelo qual o imbecil despreza tanto o meio científico e todos os títulos que dele advém, mesmo tendo ele passado pela universidade. Ele sabe, intimamente, que nunca conseguiria sequer obtê-los idoneamente, sem contar com a ajudinha e o empurrão de outros imbecis infiltrados. Afinal, se o imbecil letrado não é capaz de ler um livro, imagine se conseguiria escrever uma tese, que pressupõe anos de dedicação e aprofundamento em qualquer assunto que seja!

O imbecil não sabe a diferença de visitas ao campo daquilo que chamamos de trabalho de campo. Ele acha que, porque visitou uma instituição, entende toda a sua dinâmica e ridiculariza o discurso dos diversos profissionais que se dedicam a todo um trabalho de campo, com suas teorias e métodos. Gabando-se muito de sua esperteza, o imbecil letrado sequer sabe discernir fontes confiáveis, condensando informações obtidas aqui e ali, além de cometer erros estilísticos dos quais nem se dá conta, o que provoca o desgosto nos letrados um pouco mais exigentes.

O imbecil ignora o imenso gesto de coragem de Prometeu, deus grego que, ao roubar a chama do conhecimento dos Deuses para a Humanidade, pôs em risco a dominação dos mesmos sobre os mortais, sendo, por isso, severamente punido: a dor eterna de ter o seu fígado infinitamente consumido pela harpia. Submisso ao poder, que adora como se fosse deus, o imbecil milita sempre nos bastidores, onde sabidamente não haverá os custos de tomar uma posição aberta ou os riscos de uma punição. Para o imbecil, isso é ser inteligente!...

O imbecil omite-se diante das injustiças desferidas por outros imbecis contra as pessoas sensatas que se manifestam de peito aberto contra as imoralidades políticas e institucionais que os imbecis tanto reclamam, mas que não hesitam em se locupletar quando beneficiados. O imbecil é contraditório: fala, fala, fala, mas silencia se aquilo do qual reclama passa a beneficiá-lo. No fundo, a sua reclamação é inveja, dor de cotovelo, não é indignação sincera. O imbecil nunca perde a oportunidade de aparecer publicamente para estufar o peito e dizer o quanto é corajoso, desde que a coragem não ofereça riscos...

O imbecil considera inimigo quem pensa diferente dele. O único pecado desses inimigos reside em serem mais bem preparados e autênticos do que os imbecis na busca de seus ideais. No fundo, esse rancor é motivado pela inveja de um ideal pelo qual lutar. O “inimigo” do imbecil – “inimigo” feito pelo imbecil, sem conhecimento do “inimigo” – é a prova viva de que o imbecil não tem disposição sincera para lutar por um ideal. O “inimigo” evidencia que o imbecil fala, fala, fala, mas não se prepara para lutar. O “inimigo” é inimigo porque involuntariamente mostra a sua falácia.

Por muito tempo, os meus amigos mais próximos me alertaram que eu, apesar de notoriamente impaciente, era excessivamente tolerante na escuta das pessoas. Isso porque o importante para mim sempre foi a troca, o debate... Mas os imbecis revelaram os limites da minha tolerância. A pregação que castra a minha intelectualidade e a possibilidade da própria troca em si – valores tão valiosos para mim – não merece a minha tolerância, atenção ou debate. Onde não há troca, não é viável evoluir.

Quem autoritariamente se enche de razão (em nome do “Povo”, de “Deus”, da “Lei” ou da “Ciência”) não consegue se esvaziar para o debate e abrir-se para a possibilidade de outras perspectivas. Precisamos ser intelectuais empáticos que quebrem todo um repertório vulgarizado de inacessibilidade, aprendendo a escrever para o não especializado, provocando também educação sentimental. Atualmente, enfrentamos a despolitização privatista, o pragmatismo individual e a pressa irresponsável, ou seja, tudo que mais interessa ao neoliberalismo: cada um no seu cercado, cheio de razão, consumindo o planeta, ignorando-se marcialmente no mercado. Choque, não toque...

Mas não adianta sustentar o debate com quem não demonstra respeito pela escuta, com quem é incapaz de se esvaziar para se preencher outra vez de ideias, principalmente numa “arena vazia” como o Facebook, no qual a falta de “cara-cara real” entre pessoas sentimentalmente deseducadas apenas intensifica o lado mais cruel de personalidades autoritárias, apressadas, inseguras, desrespeitosas e covardes. Enfim, precisamos ser seletivos em relação a tudo o que emperra a nossa evolução intelectual, sentimental, ética e humanitária. Precisamos de uma educação sentimental para nossos filhos não se tornarem imbecis superficiais ou isolados internautas que banalizam o “mal”.

*Formada em História, mestre em Ciência Política e Doutora em Saúde Coletiva

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Monsanto e Luiz Carlos Heinze: uma parceria abençoada pela grande mídia do Brasil

Davenir Viganon
Um processo judicial coletivo contra a Monsanto foi aberto no Tribunal de Justiça de Los Angeles, no dia 20 de abril de 2015. A acusação é de propaganda enganosa promovida pela empresa, que esconde os efeitos danosos do Glifosato. A Monsanto propagandeia que o produto não afeta seres humanos, enquanto pesquisas comprovaram os efeitos danosos. As informações são da Revista Ecologia.

Nada disso foi noticiado nos grandes grupos de mídia estadunidenses. As principais agências de notícias também se negaram a repercutir o assunto. Esta cobertura da mídia é encontrada também no congresso. Segundo a reportagem “a proposta do deputado federal Mike Pompeo, do partido Republicano, é chamada de DARK Act (Deny Americans the Right to Know), HR 1599, que iria dar imunidade jurídica a Monsanto e impedir que os Estados exigissem a rotulação dos transgênicos”.

O que isso tem a ver com o Brasil? O Glifosato, é importado e usado as toneladas para o país sob o nome de “Roundup”. O resto da história não é muito diferente em terras tupiniquins. A mídia hegemônica não solta uma palavra sequer sobre as graves acusações e evidentes suspeitas sobre a Monsanto. O mais grave, no entanto, é como a intensa representação política dos ruralistas no Congresso Nacional não demonstra preocupação ao ocultar os perigos deste produto.

O projeto do deputado federal Luis Carlos Heinze (PP-RS) altera a redação do Artigo 40 da Lei nº 11.105/2005 e, na prática, revoga o Decreto 4.680/2003, que regulamenta os transgênicos no Brasil. Essa alteração desobrigaria o rotulamento de transgênicos com o triângulo amarelo e a letra “T”, passando apenas a uma frase grafada no produto. Para todos os efeitos é a mesma “DARK Act” dos EUA.

Efeitos do Glifosato (“Roundup”) nos seres humanos

A esperança dos advogados e ativistas anti Monsanto nos Estados Unidos é basicamente exercer pressão pela via judicial, procurando estabelecer precedentes legais e obter restrições à Monsanto a partir da justiça. A possibilidade da mesma contra o poderio da Monsanto é no mínimo, ingênua. Uma economia em crise como a estadunidense dificilmente abortaria, ou sequer restringiria, uma operação lucrativa como a venda do “Roundup”.

No caso Brasileiro, eleve-se exponencialmente tal ingenuidade. A poderosa bancada ruralista conquistou facilmente a Câmara de Deputados e o projeto tramita no Senado neste momento. Não se vislumbra uma derrota da Monsanto nem dos ruralistas brasileiros. Afinal o Glisofato dá lucro e como diria James Carville: “É a economia, estúpido!”.

Coletivo Intervozes aciona a Justiça contra a Revista Veja


No último dia 16, os ativistas da comunicação do Coletivo Intervozes acionaram a justiça em São Paulo contra a Revista Veja em virtude da sua última capa e respectiva reportagem. Segundo informações do portal do Intervozes, a Revista Veja violou ao menos dois pontos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), especificamente o segundo parágrafo do artigo 143 e o Artigo 247, que protegem crianças e adolescentes de terem imagens e/ou identificações exibidas ou passiveis de identificação.

O motivo principal da ação, para além dos pontos específicos da lei descritos integralmente na representação e de todo o “juridiquês”, é que o princípio de que ““ninguém será processado nem sentenciado senão pela autoridade competente” - Artigo 5 da constituição federal - é jogado no lixo, pelo julgamento prévio exercido pela Revista Veja em detrimento de uma propaganda política de apoio politico a Frente Parlamentar da Segurança Pública, um nome pomposo para a conhecida bancada da bala, grupo de deputados que se beneficiam do mercado de armas no Brasil.

A questão da maioridade penal não pode ser defendida pela Revista Veja, se for ampliada análise sob seus argumentos. Para isso, ela teria de relacionar os interesses políticos da Bancada da Bala com a Defesa da flexibilização do Estatuto do Desarmamento e a consequente reabertura do comércio legal de armas, que são fundamentais em economias como a estadunidense, bem como o incentivo aprivatização dos presídios, que custam muito mais caro ao Estado, e que por sua vez só viriam a se fortalecer com a proposta da redução da maioridade penal. Por isso ela reduz toda uma pauta política a singularidade mais trágica possível.

Estes picos de violações da lei como o objeto em tela – outro foi a capa oportunista às vésperas das eleições presidenciais em 2015 - denunciado pelo Intervozes são usuais por parte da revista dos Civita. Sabem bem seus editores que a justiça é demasiada lenta para julgar o caso até que o intendo maior da panfletagem jornalística seja retificada. Os senhores das armas ficam agradecidos.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

6 problemas do jornalismo brasileiro

Davenir Viganon
“No Capitalismo, o jornalismo é atravessado pela ideologia burguesa como uma fruta é passada por uma espada (...) de modo flagrante, evidente e doloroso. Nem por isso fruta será sinônimo de espada.” - Adelmo Genro Filho.
Historicamente, o jornalismo é uma forma de conhecimento que surgiu condicionado pelo capitalismo. Contudo está muito além de ser mero meio de manipulação, pois possui possibilidades emancipadoras desde que não seja confundido com o capitalismo. O controle político-econômico dos meios de comunicação pela classe dominante foi, e ainda é, bem sucedido no Brasil e o jornalismo muito suscetível a sua ideologia. Elencamos aqui seis barreiras que o jornalismo brasileiro enfrenta que o impedem de explorar tais possibilidades.

1 – A seriedade do “Padrão Globo de jornalismo”
A austeridade na divulgação de notícias, os semblantes sisudos e as vozes doutorais dos apresentadores dos telejornais são características bastante conhecidas do modo de fazer jornal no Brasil. Elas se consolidaram durante a ditadura, tendo na voz e postura dos âncoras e no texto jornalístico em geral, assemelhado às notas oficiais da versão dos militares. A seriedade durante aquele período buscava, em primeiro lugar, representar credibilidade de especialistas técnicos, “doutores”, vergados em ternos rijos e voz firme e aveludada. Contudo, durante a ditadura, a firmeza no semblante era principalmente um meio de transpor a autoridade dos militares para a bancada. Trata-se de um jornalismo feito para ser assimilado, e não questionado. Passadas mais de duas décadas do fim da ditadura, este modelo se mantém como o padrão. A fim de confirmar a tese, basta lembrar como os casos de descontração nos ambientes austeros das bancadas são tratados como notícia, visto que fogem à regra. 
 

2 – Personalismo
Em outro tipo de telejornal, busca-se opor a rigidez consolidada pela Rede Globo. Encabeçado por José Luiz Datena, seu jornalismo personalista dispensa a bancada e a rigidez e busca centralizar a autoridade e a credibilidade de toda a equipe de um programa em sua figura. Os espaços que algumas bancadas dedicam aos comentaristas acabaram por se tornar programas isolados. Com vida própria, os conceitos jornalísticos defendidos pela grande imprensa são contraditoriamente subvertidos nas ações e defendidos na fala, reforçada pela sua presença de palco, que é a grande atração do programa.

3 – Glamourização de certos profissionais
Presente nos programas de televisão em geral, desloca o jornalismo como forma de conhecimento para uma forma de entretenimento. Um exemplo é a relação conjugal dos âncoras do JN, William Bonner e Fátima Bernardes, ter ganhado sutilmente mais atenção que as notícias (vídeo abaixo), ou ainda, a relação bizarra entre o formalismo do mesmo Bonner com a descontração da nova “moça do tempo”, Maria Júlia Coutinho. Quando jornalistas ganham status de artistas, a notícia tende a se tornar um mero objeto de entretenimento.

4 – Mito da objetividade jornalística
Sob o mesmo objeto cabem vários olhares, seja ele jornalista, mendigo ou advogado. Contudo, o jornalismo no Brasil ainda reproduz a ideia de que apenas munido de uma técnica jornalística é possível apreender um acontecimento sem nenhuma mediação, ou ainda, que basta buscar o mais próximo de uma experiência imediata para fazer uma notícia. Porém independente da técnica adquirida, o imediato nunca é de fato sem mediações, pois sempre haverá mediação na apreensão da realidade. Mesmo a apreensão direta, através dos sentidos, implica as experiências, a ideologia, o mundo histórico e os conhecimentos anteriormente adquiridos. 

5 – Mito da imparcialidade/neutralidade jornalística
A qualidade mais proclamada que o jornalista deve possuir é de ser imparcial, ou mesmo quando se admite não ser possível sê-lo, deve chegar o mais próximo disso. Max Weber já dizia que o neutro é aquele que escolheu o lado mais forte. No jornalismo isso implica em reconhecer que todas as etapas da construção da notícia estão cercadas de escolhas e tomadas de posição, voluntárias ou não. Nosso mundo está impregnado de ideologia e o mito da neutralidade jornalística é uma das formas de reproduzir e aceitar a ideologia liberal conservadora na sociedade não apenas como a escolha correta entre outras possibilidades, mas como uma forma universal. Nesse sentido, ao entender a técnica jornalística como neutra desconsidera-se todo o processo histórico de criação do jornalismo como o conhecemos.

6 – Concentração privada de concessões públicas
A maior parte das notícias consumidas hoje ainda é veiculada pela TV aberta e pelo Rádio. Elas só podem ser operadas através de concessões públicas fornecidas a entes privados, que criaram verdadeiros latifúndios midiáticos. Essas empresas desde o início da regulamentação das concessões sempre contaram com uma legislação muito aberta à concentração da propriedade de mídia, que se encontra sob a forma de intrincadas modalidades de propriedade ilegais. Os resultados são poucas famílias exercendo o controle empresarial (e obviamente editorial) da grande maioria das emissoras de rádio e TV do País.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O mártir dos idiotas - COLUNA CAVANDO BURACOS

Daniel Baptista - COLUNA CAVANDO BURACOS
Primeiramente, não há nada mais a declarar sobre a conduta e a postura do cidadão Daniel Barbosa (mostrada no vídeo acima), o título acima já o define. Em segundo - e usando o surrado argumento de que somos uma nação multiétnica e com uma importante composição de imigrantes -, tais motivos são suficientes para cessar a discriminação com esses homens e mulheres que vem de tão longe para ganhar as suas vidas aqui. Ondas migratórias sempre existiram na humanidade. Foi assim que saímos da África, migrando. Foi assim que chegamos à América, e também a forma com a qual os hunos chegaram ao Império Romano. Foi assim também que os “bárbaros”, empurrados pelos hunos, chegaram e se miscigenaram com os romanos. Foi deslocando-se no espaço geográfico que espanhóis, portugueses, ingleses e franceses chegaram à América no século XVI para administrar a máquina colonial.

Italianos e alemães chegaram ao Novo Mundo no século XIX, fugindo da miséria e da fome, curiosamente o mesmo motivo da atual onda migratória haitiana e africana para o Brasil. E elas ainda ocorrem na Europa, como vemos diariamente nos jornais e portais de notícias. Navios cheios de afegãos, sírios e líbios fugindo de seus conflitos. Mesmo em crise, os EUA são o destino de milhares de latinos que se arriscam em cruzar a fronteira com o México, seduzidos pela luz de ouro de tolo do “american way of life”.

Há inúmeros fatores que motivam as ondas migratórias, como mudanças no meio ambiente, ameaças externas, perspectivas de enriquecimento em curto prazo, fome endêmica, guerras, miséria ou promessas de prosperidade. As razões sempre irão existir e continuarão a acontecer de tempos em tempos, seja qual for a sua necessidade. A necessidade é o motor da história.

E aos racistinhas enrustidos digo o seguinte: não me venham com bobagens do tipo “essa gente vai aumentar a criminalidade no país”, ou “esses vagabundos vieram aqui receber Bolsa Família” e etc. Não venham me dizer que o imigrante alemão e italiano era mais valoroso que esse imigrante haitiano, que era mais puro e mais honesto. Al Capone e a família Gambino que o digam desta suposta pureza e bom caráter europeu. Já procuraram conversar com esses homens e mulheres que estão pela cidade como ambulantes, no comércio e serviços ou então na rodoviária esperando os seus destinos? Façam isso e surpreendam-se antes de dizer asneiras.

Segunda-feira, dia 8 de junho, o programa CQC da TV Bandeirantes exibiu uma matéria em que a equipe de reportagem foi fazer um lero-lero com o mártir dos idiotas. Temos que ficar alertas com a relação passiva que temos com a TV. Apesar de deixar uma sensação de “viva! Chupa essa, otário!” a matéria exibida não resolve ou propõe nada para o crescente problema no País: o avanço das ideias extremistas de cunho fascista. A reportagem serviu apenas para dar a sensação de missão cumprida, de mais uma vez ter vingado o telespectador.

Infelizmente existem muitas pessoas como Daniel Barbosa, mas elas não têm a coragem que o nosso lunático anti-herói tem de falar e de se expor, sem medo das consequências. E esse é mais um perigo, o de um lunático desses servir de estímulo ou liderança para milhares de desinformados ou mal caráteres mesmo. Se isso ocorrer, essas pessoas serão tão idiotas quanto esse tal de Daniel Barbosa.

terça-feira, 9 de junho de 2015

O Jesus histórico e a obscuridade da luz

Dhiego Recoba
Sempre que escuto alguém começar uma conversa com "Jesus disse", deparo-me diante da mesma dúvida, terrível no entender dos inquisidores de ontem e de hoje. Jesus disse, ou alguém disse que Jesus disse? Ou ainda, para agravar o quadro de incerteza: o quanto daquilo que se ouviu dos testemunhos foi, de fato, dito por Jesus?
Willem Dafoe como Jesus, em A Última Tentação de Cristo (Filme de Martin Scorcese - 1988).
 
Sob o olhar daqueles que têm por hábito ler a Bíblia sem criticidade alguma, como se vivessem em um tempo anterior a Martinho Lutero (e vivem, de certo modo), tais indagações soam como vãs elucubrações, produzidas apenas para atazanar a santa paz do conhecimento pronto trazido por um intermediário qualquer – seja ele pastor, padre, entre outros – que julga ter o monopólio da interpretação acerca de Jesus. Mediação que, ironicamente, foi rechaçada pelo Nazareno ao longo de sua caminhada na Terra.
 
Em As Palavras Desconhecidas de Jesus, Joaquim Jeremias (um teólogo alemão nascido na cidade de Dresden, que viveu entre 1900 e 1969) aponta não mais que duas dezenas de citações como sendo realmente insuspeitas. Outro alemão, especialista no Novo Testamento, Ernst Käsemann, vai além, ao afirmar que “é deprimente verificar quão pouco do que é narrado sobre Jesus no Novo Testamento pode ser considerado autêntico. A figura histórica de Jesus só pode ser reconhecida em algumas palavras do Sermão da Montanha, nas discussões com os fariseus, em algumas parábolas e em algumas outras narrativas”¹.
 
É grande a escassez de fontes confiáveis a respeito do Jesus histórico, já que os primeiros textos sobre a sua vida surgiram após duas ou três gerações, por volta de 70 d.C. É o que afirma Holger Kersten , outro teólogo alemão, em sua obra Jesus Viveu na Índia – A desconhecida história do Cristo antes e depois da crucificação. Digna de compor quaisquer Index Prohibitorum, o autor afirma que o cristianismo de hoje pouco tem em comum com as ideias que Jesus ambicionava difundir, pois muitos dos princípios doutrinários constantes no testemunho de Paulo são antagônicos à mensagem do Cristo. Em outras palavras, como disse Emil Brunner: “A Igreja é um grande mal entendido. De um testemunho construiu-se uma doutrina; da livre comunhão, um corpo jurídico; da livre associação, uma máquina hierárquica”².
 
O Cristianismo, enquanto doutrina, obteve o consenso mínimo em torno dos evangelhos apenas por volta do século II, tamanha a divergência entre as comunidades e seitas referentes ao cristianismo primitivo, a ponto de terem em comum apenas o nome “cristão”, segundo o filósofo grego Celso, que viveu naquele período. No entanto, a unificação que abriu o caminho para a difusão da fé gerou consigo uma série de livros, denominados apócrifos, os quais modificam radicalmente algumas questões, como, entre outros exemplos, a condição da mulher na sociedade.
 
O cerne do ideário de Jesus consistiu na compaixão universal, a qual nenhum ser é indigno de recebê-la, seja qual for a sua natureza. Nesse sentido, podemos entender que a escolha arbitrária de um escopo doutrinário, que privilegiou os homens em detrimento das mulheres no ordenamento social, constituiu-se no anti-cristianismo porque insere uma vírgula após a célebre sentença Jesus é amor.
A atriz Viviany Beleboni, representando a Paixão de Cristo, durante a 19ª Parada do Orgulho LGBT, em São Paulo.
 
Inevitavelmente, tais questionamentos sobre o real legado de Jesus remetem-nos às reações explícitas de incompreensão sobre o fato ocorrido no último domingo, em São Paulo, durante a Parada GLBT, ilustrada na foto acima. Segundo o deputado federal Jean Wyllys, em seu inflamado artigo publicado no site Carta Capital, o choque causado pela encenação da Paixão de Cristo tem origem na figura transgênero, a qual ocupa o lugar do Nazareno.
 
No entanto, não seria surpreendente uma reação semelhante se, na mesma condição, estivesse uma heterossexual. Nos dias que correm, o desconforto ortodoxo demonstra surgir da troca de papeis previamente determinados pela tradição. No caso em tela, com um agravante: além de ser a figura feminina, é um falso feminino; ou seja, é o homem que ousou descer a uma condição que não é a sua por natureza.
 
Para as mentalidades obtusas, corroídas pelo apego a uma forma de conhecimento que não questiona a si mesmo, um travesti crucificado foi o maior dos acintes que a comunidade GLBT ousou empreender. O fato em si foi um prato cheio para os carolas oportunistas que, com mandatos eletivos nos punhos, manipulam multidões a partir de sentimentos nada cristãos, como o sectarismo e o ódio. Cínicos, assumem o risco de conduzir pessoas nem sempre tão maldosas quanto eles ao encontro dos fariseus, contra os quais Jesus se opôs até o fim de sua vida.
 
Caso a profecia dos fundamentalistas se concretizasse com o retorno de Jesus, este certamente ficaria ao lado dos oprimidos, pois escolheu acompanhá-los em vida, e não ao lado dos mercadores da fé, de acordo com a coerência de sua história.
 
Notas: 
[1] Käsemann, apud Kersten, Holger. Jesus Viveu na India. A desconhecida história do Cristo antes e depois da crucificação. São Paulo: ed. Best Seller, 1988, p. 33.
[2] BRUNNER, Emil, Apud Kersten, 1988, p. 12.

domingo, 7 de junho de 2015

Pauta jornalística da RBS: invasão haitiana ou os serviçais agradecidos?

Davenir Viganon
A recente chegada de um grupo de imigrantes caribenhos e africanos suscitou uma campanha midiática da RBS, que sob a polêmica gerada pelos que não os aceitam, expôs as diferenças entre a ideologia liberal e a conservadora, alimentando um debate que esconde tanto a exploração do trabalho quanto o próprio racismo superficialmente discutido.
Imigração haitana na visão dos conservadores 

A chegada ao Brasil de imigrantes do Haiti, Senegal e Nigéria, entre outros países do continente africano, não é recente. Desde 2010, quando um terremoto devastou o Haiti, a imigração dos caribenhos já havia dado um salto. Na página do ClicRBS (a maior do Estado do RS), que foi pesquisada, foram encontradas pouquíssimas ocorrências de notícias deste movimento no Estado até este mês. No dia 16/04/2014, o jornal Zero Hora publicou uma reportagem sobre os imigrantes que se estabeleceram nos últimos anos, bastante abrangente e no geral positiva em relação à presença destes estrangeiros, ainda que omita ascondições que podem ser consideradas de semiescravidão nos frigoríficos do interior gaúcho.

Este mês, contudo, o discurso mudou de figura radicalmente. Da parte dos leitores, o tom da boa hospitalidade do gaúcho foi praticamente jogado na lata do lixo e substituído por uma pauta neoconservadora que tem crescido vertiginosamente nos últimos anos. Em outras palavras, o tradicional tratamento que a RBS vinha dando ao assunto, como as boas vindas à mão de obra barata (característico da pauta neoliberal), confrontou-se com a ferrenha contrariedade dos conservadores que enxergam nos imigrantes agentes que ratificam as políticas progressistas do atual governo federal.

As notícias do ClicRBS, que reúnem todos veículos midiáticos do Grupo de propriedade da família Sirotsky, não reproduzem diretamente o discurso de ódio, mas o estimulam através da sua cobertura jornalística da mais recente leva de caribenhos e africanos. A própria necessidade de acompanhar passo a passo o fluxo imigratório que já é comum há alguns anos é questionável. Foram 10 ocorrências do dia 19 até o dia 31 de maio, muitas delas com pouco a acrescentar a totalidade da situação. Além da quantidade, o foco de praticamente todas as notícias é a incapacidade administrativa de lidar com a imigração, como se destaca nas notícias D e E. Esta campanha jornalística busca deliberadamente alimentar o discurso de ódio conservador e por consequência sua pauta política.

A resposta de/a Túlio Milman

As opiniões dos leitores, na mídia impressa, não são escolhidas espontaneamente, passam pelo mesmo processo de edição que o restante do conteúdo do jornal. Este recorte resume as “preocupações” dos conservadores:
O comentário acima foi escrito por um leitor em resposta ao texto do colunista Túlio Milman, “Haitianos, um racismo camuflado”, que apesar de atacar o racismo escrachado dos leitores, o faz tranquilizando os mesmos que os imigrantes vão ocupar apenas a parte de baixo na sociedade, como no seu relato da frentista que gosta de trabalhar. Qualquer comparação com as babás filipinas que “gostam de servir”, não é mera coincidência.

Os silêncios de todo drama dos caribenhos e africanos ficam abafados pelo confronto ideológico entre liberais e conservadores. As condições penosas de trabalho que os imigrantes já tem sido submetidos não terão espaço, nem comentários selecionados pela edição impressa, tampouco o racismo à brasileira ao qual são/serão submetidos aqui.

Notícias analisadas, para este texto:

A - “Mais nove haitianos chegam a Porto Alegre” - Dia 31/05/2015. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/mais-nove-haitianos-chegam-a-porto-alegre-4771933.html

B - “Haitianos, um racismo camuflado” - Dia 26/05/2015. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/tulio-milman-haitianos-um-racismo-camuflado-4768586.html

C – “Ônibus com senegaleses e haitianos chegam a Porto Alegre” - Dia 26/05/2015. Disponível em:
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/onibus-com-senegaleses-e-haitianos-chegam-a-porto-alegre-4768548.html

D - “Falta de coordenação dificulta acolhida de imigrantes” - Dia 26/05/2015. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/falta-de-coordenacao-dificulta-acolhida-de-imigrantes-4768453.html

E - “Falta de mapeamento sobre imigrantes estrangeiros dificulta ações do Estado” - Dia 26/05/2015. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/falta-de-mapeamento-sobre-imigrantes-estrangeiros-dificulta-acoes-do-estado-4768429.html

F - “Ônibus chegam com 25 senegaleses e 18 haitianos a florianópolis” - Dia 25/05/2015. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticia/2015/05/onibus-chegam-com-25-senegaleses-e-18-haitianos-a-florianopolis-4767831.html

G - “Porto Alegre se prepara para receber refugiados haitianos” - Dia 24/05/2015. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/porto-alegre-se-prepara-para-receber-refugiados-haitianos-4767632.html

H - “Imigrantes podem chegar a Porto Alegre na madrugada de domingo” - Dia 22/05/2015. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/imigrantes-haitianos-podem-chegar-a-porto-alegre-na-madrugada-de-domingo-4766856.html

I - “Nenhum Ônibus com imigrantes sairá nesta quinta, afirma governo Acriano” - Dia 21/05/2015. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/nenhum-onibus-com-imigrantes-saira-nesta-quinta-afirma-governo-acriano-4765683.html

H - “Governo do Acre deve enviar oito ônibus com refugiados haitianos e senegaleses para Porto Alegre”. Dia 19/05/2015. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/05/governo-do-acre-deve-enviar-oito-onibus-com-refugiados-haitianos-e-senegaleses-para-porto-alegre-4764024.html

J - “Novos imigrantes mudam o cenário do Rio Grande do Sul” - Dia 16/08/2014. Disponível em:
http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/08/novos-imigrantes-mudam-o-cenario-do-rio-grande-do-sul-4576728.html