sábado, 14 de março de 2015

De Getúlio a Dilma: Petrobrás e golpe

Ricardo Artur Fitz
Este texto não é um texto acadêmico. Nem foi concebido para sê-lo. Ele é resultado de preocupações e consequentes reflexões sobre o atual momento brasileiro, em que pese duas questões centrais: a evidente construção de um clima pré-golpe e a questão que está levando ao esgotamento da Petrobrás, numa clara tentativa de privatizá-la e, particularmente, internacionalizar o pré-sal. Obviamente é impreciso e mesmo falso examinar os eventos históricos a partir de uma monocausalidade. Mais impreciso ainda seria atribuir à questão do petróleo e da Petrobrás uma relação direta de causa e efeito com os eventos e, em particular com as crises políticas. A realidade é muito mais complexa. A preocupação é “juntando as peças”, tentar ver como elas se articulam. É certo que no texto existem muitas lacunas e omissões e é possível que haja imperfeições, também é certo que trata de forma superficial uma questão muito complexa, mas acredito que, como um todo, ele é coerente, preocupantemente coerente. Repito: não é um texto acadêmico, mas penso que vale como reflexão.

Negação ao Petróleo
A trajetória do petróleo no Brasil começa já no século XIX. Em 1892 foi feita uma prospecção e perfurado um poço de 488 metros de profundidade em Bofete (SP). Os resultados, porém, revelaram apenas água sulfurosa.

Em 1930 o engenheiro Manoel Inácio Bastos, ao ouvir falar de uma “lama preta” usada como combustível pelos moradores de Lobato, na Bahia chama a atenção das autoridades para a possível existência de petróleo na região. Bastos é desacreditado, chamado de “maníaco”. Iniciava-se uma campanha que negava a existência de petróleo no Brasil. Esta campanha iria se estender por um bom tempo no Brasil. Havia interesse por parte de grupos estrangeiros que forneciam combustível ao Brasil que não se fizesse exploração de petróleo no país.

Cinco anos depois, Monteiro Lobato (o sobrenome do escritor e a região da Bahia são apenas coincidência) passa a advogar publicamente a questão da prospecção e exploração de petróleo no Brasil. Envia duas cartas ao presidente Getúlio Vargas. Na primeira se refere às “manobras da Standard Oil para senhorear-se das nossas melhores terras potencialmente petrolíferas”. Casualmente, a subsidiária brasileira da Standard Oil, a Esso Brasileira de Petróleo, irá patrocinar, alguns anos depois, a partir de 1941, o mais famoso noticiário da época: o “Repórter Esso”.

Monteiro Lobato e o petróleo

Na segunda carta, após uma audiência com Getúlio, em que este aparentemente se comprometeu a criar por decreto a Cia Petróleos do Brasil, Monteiro Lobato denuncia as pressões para que o decreto não se concretize: “há alguém interessado em embaraçar a ação da Cia Petróleos do Brasil, dificultando a obtenção da autorização para que ela siga seu curso natural”. E segue afirmando: “há gente paga por estrangeiros para que o Brasil não tenha nunca o seu petróleo. Em vez de, pelas funções de seus cargos, esses homens tudo fazerem para que tenhamos petróleo, quanto antes, tudo fazem para que não o tenhamos nunca.”

Em 1936 Monteiro Lobato publica “O escândalo do petróleo no Brasil”. Neste texto, acusa o governo de não perfurar, nem deixar que se perfure.O livro foi sucesso editorial. Em menos de um mês, esgotou-se a edição do livro (5 mil exemplares). Logo em seguida sai uma segunda edição, que também se esgota rapidamente (ao todo foram lançadas 10 edições). Incomodado com o teor das críticas o governo de Getúlio manda recolher todas as edições.

Em 1938, finalmente é criado o Conselho Nacional do Petróleo. O CNP também não avançou muito nas questões relativas à prospecção e extração do petróleo.
No ano seguinte, novas críticas de Lobato à burocracia e a integrantes do governo, que dificultavam o desenvolvimento de uma política de petróleo no Brasil,levaram-no à prisão, sob a acusação de ser “subversivo e desrespeitoso”. Foi condenado a uma pena de seis meses, mas a mobilização de intelectuais brasileiros conseguiu que fosse indultado e Monteiro Lobato passou “apenas” três meses no Presídio Tiradentes.

Já há algum tempo vinha acontecendo uma campanha de desmoralização de Monteiro Lobato. Em 1933 publicara História do Mundo para crianças que foi alvo de censura e perseguição pela Igreja. O padre Sales Brasil escreveu um libelo intitulado A literatura infantil de Monteiro Lobato ou comunismo para crianças. Esta campanha ainda se estendeu por longo tempo: “ a edição de 1958, das Edições Paulinas, traz cartas de apoio que vêm do Vaticano e um prefácio que clama como vinda desde 1936 a queixa contra ‘os grande males que poderiam advir, para fé e a educação cristã das crianças, da leitura das últimas obras de Monteiro Lobato’.”[1]

Em 1939 é encontrado petróleo em Lobato, cuja exploração não era economicamente viável,  e em 1941 ocorre a primeira extração comercial no município de Candeias, na Bahia. O aproveitamento deste recurso e a ampliação da prospecção e extração ocorreram muito lentamente. Não se faziam investimentos significativos.

O final do estado Novo viu surgir uma intensa disputa entre grupos políticos que foram denominados de ”nacionalistas” e “entreguistas”. Enquanto os primeiros advogavam a causa do fortalecimento da economia legitimamente nacional, os segundos representados politicamente pela União Democrática Nacional (UDN) e pela grande imprensa, defendiam o ingresso de capital externo no país. No que se refere ao petróleo, isso significava atrair as grandes petroleiras estrangeiras (principalmente americanas) ao Brasil. No governo Dutra essa disputa se torna ainda mais acirrada, inclusive nos círculos militares.

Movimentos sociais: “O Petróleo é Nosso”
Em 1946 (mesmo ano da promulgação da nova Constituição) é lançada oficialmente a campanha “O petróleo é nosso”, tendo à frente a UNE, sindicalistas, o Partido Comunista, alguns militares, além de individualidades políticas. Obviamente, havia uma identidade com o grupo dos “nacionalistas”.  A campanha “O petróleo é nosso” defendia o monopólio estatal do petróleo. Eram promovidos encontros, comícios, alguns de grandes proporções. A campanha ganhou as ruas e acabou por se transformar em uma das maiores mobilizações populares da história do Brasil.

Manifestação em prol do monopólio do petróleo no Brasil promovida pelo Centro de Estudos e Defesa do Petróleo e da Economia Nacional (CEDPEN) em 1948. Ao fundo, painel com retrato do ex-presidente Artur Bernardes que também defendia essa tese.

Getúlio, agora no início da era populista e em meio à disputa entre “entreguistas” e “nacionalistas”, encampa a ideia. Em 1951 enviou ao Congresso um projeto de lei com o objetivo de estatizar e monopolizar a exploração e distribuição de petróleo no Brasil. Isto desagradou profundamente o governo norte-americano e, ato contínuo, convida o governo brasileiro a mandar tropas à Guerra da Coréia (1950-1953). Era uma maneira de forçar Vargas a adotar um posicionamento no cenário político internacional. Vargas, por seu turno, para firmar posição, recusa o convite[2]. Abre-se uma crise com os Estados Unidos e com alguns setores militares brasileiros.

Essa crise vem acompanhada de tentativas de desestabilização de Getúlio em diversas frentes. Ainda assim, em 1953, a mobilização popular em torno de “O petróleo é nosso”, levou o Congresso a aprovar a criação da Petrobrás, que detinha o monopólio da exploração, refino e distribuição de petróleo no Brasil.

No ano seguinte a desestabilização do governo de Getúlio ganhou proporções enormes, conduzida principalmente pela UDN, por setores militares e da classe média, empresários e pela grande imprensa. Destacava-se a figura de Carlos Lacerda, apelidado de “O Corvo”, proprietário do jornal Tribuna da Imprensa. Em agosto de 1954 é dado o golpe. Militares exigem a renúncia de Vargas que se suicida, neutralizando assim o golpe de estado.

Símbolo da resistência ao capital estrangeiro
A Petrobrás sobreviveu. Sobreviveu e se tornou um símbolo da resistência ao grande capital internacional e à evasão de riquezas do Brasil para o exterior.

Timidamente a Petrobrás começa a produzir comercialmente na década de1960,ganhando grande impulso na década de 1970 (durante a ditadura militar), como resposta à crise do petróleo de 1973, a criação a OPEP e a monumental alta do petróleo no mercado internacional.

Em 1974 é descoberto petróleo na Bacia de Campos (litoral do estado do RJ) mais especificamente no campo de Garoupa. No ano seguinte o governo federal autoriza a participação de empresas estrangeiras na prospecção, mediante contratos de risco, mas a exploração continuava a cargo da Petrobrás. Em 1977 entra em operação o Campo de Enchova.

Daí em diante a Petrobrás ganha um impulso considerável. Em 1984 é descoberto o campo gigante de Albacora, no ano seguinte o campo gigante de Marlim, ambos na Bacia de Campos. Agora a Petrobrás passa a investir também pesadamente no desenvolvimento de tecnologia. Em 1994 começa a operar a primeira plataforma semissubmersível (P-18) totalmente desenvolvida pelos técnicos da Petrobras – portanto com tecnologia brasileira -, no Campo de Marlim, na Bacia de Campos (RJ). O aperfeiçoamento tecnológico passou a ser uma das marcas da empresa. Em 1996 é encontrado mais um campo gigante na Bacia de Campos: o Campo de Rocador.

A viabilidade de exploração de petróleo no Brasil e a capacidade de fazê-lo, com tecnologia nacional em uma empresa estatal que crescia vertiginosamente, ficou plenamente demonstrada. Mas, os entreguistas não se entregaram.Em 1994 Fernando Henrique Cardoso foi eleito presidente. No mesmo ano, ainda antes de assumir, FHC fez um discurso no congresso intitulado O fim da Era Vargas, que começava dizendo:“Levamos a cabo a tarefa da transição. Olhando para trás, revendo os obstáculos vencidos, podemos dizer a nós mesmos e ao País, sem jactância, mas com satisfação: missão cumprida.”

De fato, a missão estava apenas começando. Fernando Henrique deu inicio a um grande projeto de privatizações das estatais. No que diz respeito à Petrobrás, iniciou o processo de privatização da mesma, quebrando, com o apoio do Congresso, o monopólio estatal da produção de petróleo em 1997, o que foi saudado entusiasticamente pela grande imprensa brasileira. Nessa ocasião, a Petrobrás já era a terceira maior empresa da América Latina.

Simultaneamente, abriu o capital da empresa para investidores estrangeiros, propiciando a entrada da Petrobrás na Bolsa de Valores de Nova York. As consequências disso se estenderiam ao longo do tempo. Em 2002 - devido aos escândalos e fraudes financeiras e contábeis de grande corporações americanas, como a Enron, Xerox, Worldcom eoutras - foi promulgada nos Estados Unidos a Lei Sarbanes-Oxley, conhecida por Lei SOx. Agora, a maior empresa brasileira se torna obrigada a submeter-se às autoridades norte-americanas, por força de lei (também americana).

Ainda em 1997 foi implementado o modelo de exploração por concessão. Com a lei, o petróleo e o gás passariam a ser propriedade privada das empresas que o exploram. O petróleo só pertence à União antes de sua exploração.

Petrobrax
Mas a coisa não para por aí. No final do ano 2000, o presidente da Petrobrás, Philippe Reischtul, anunciou para o ano seguinte a mudança do nome da Petrobrás para Petrobrax, com o objetivo de facilitar o processo de internacionalização da empresa. Justificava o ato explicando que a terminação brás, no nome, a identificava com a ineficiência das estatais. A ineficiente Petrobrás tinha uma receita de 69,2 bilhões em 2002 e em 2012 esta ineficiente empresa estatal que, – não custa lembrar – havia se tornado a maior empresa brasileira e a terceira da América Latina ampliou sua receita para 281,3 bilhões de reais, com lucro líquido de 5 bilhões de reais por trimestre (2014).

Também cabe lembrar que na época a grande imprensa alardeava de forma uníssona que as estatais eram ineficientes por serem estatais, apesar de os balanços de empresas como a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce (privatizada escandalosamente abaixo do seu valor real) e o Banco do Brasil mostrarem exatamente o contrário. O discurso da ineficiência das estatais era a justificativa para a transferência de empresas altamente lucrativas para mão privadas, estas freqüentemente de capital transnacional.

Pois bem, apesar de contratar uma empresa, a Und SC Ltda, para fazer a nova logomarca, sem licitação (a lei de 1997 o permitia), ao custo de R$ 700.000,00 à época, a Petrobrás continuou sendo Petrobrás. Cabe ainda salientar que o custo total do processo de transição ficou orçado em 50 milhões de reais. Veja matéria sobre o anúncio da Petrobrax.  

O presidente da Petrobras, Philippe Reischtul, em frente ao novo logotipo da empresa

Wikileaks
Em 2006 a Petrobrás anunciou a descoberta de petróleo no pré-sal, a profundidades que vão de 5 a 7 mil metros abaixo do nível do mar, com possibilidades de ser a maior reserva de petróleo do mundo.A partir daí, mais do que nunca, os olhos e os tentáculos das grandes petroleiras voltaram-se para o Brasil e para a Petrobrás. Não se poderia deixar tamanha riqueza nas mãos de uma estatal de um país emergente, e ainda por cima governado por um partido de centro-esquerda.

Em dezembro, após as eleições presidenciais daquele ano, foram revelados pelo Wikileaks, do ex-agente americano da NSA, Edward Snowden, cinco telegramas enviados pelo consulado norte-americano a Washington envolvendo a questão do pré-sal. - A cônsul norte-americana no rio de Janeiro, Elizabeth Lee Martinez se refere ao pré-sal como “uma nova e excitante descoberta” e uma “oportunidade de ouro” para as empresas americanas. Um dos telegramas, bastante extenso, levou o sugestivo título de A indústria do petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal? É uma referência direta à lei que define a Petrobrás como operadora única do pré-sal e as outras empresas (coisas da lei de 1997), em regime de partilha, deveriam entregar ao menos 30% do que for explorado à União. Snowden revelou ainda que nos telegramas que a diretora de relações governamentais da Chevron, Patrícia Pradal, teria dito que o candidato tucano José Serra “teria mudado as regras”, caso fosse eleito presidente nas eleições daquele ano. Já para “a diretora de relações internacionais da Exxon Mobile, Carla Lacerda, a Petrobrás terá todo o controle sobre a compra de equipamentos, tecnologia e contratação de pessoal, o que poderia prejudicar os fornecedores americanos.”

O fato é que José Serra não conseguiu mudar as regras porque não foi eleito. Apesar da intensa campanha contra o presidente Lula e as tentativas de desestabilização de seu governo, tendo como pano de fundo a questão do “mensalão” (que não cabe examinar aqui), Lula elege seu sucessor, ou melhor, sucessora: Dilma Rousseff. Ora, Dilma havia sido justamente ministra de Minas e Energia no segundo governo Lula e tinha uma cadeira no Conselho de Administração da Petrobrás. Era, portanto, alguém que conhecia a questão.

A refinaria de Pasadena
Nisto se encaixa a complexa questão da compra da refinaria de Pasadena, na Califórnia. Em 2004 a antiga Refinaria Crown estava praticamente falida, com uma dívida milionária (em 1998 chegou a ter um prejuízo de 829,4 milhões de dólares), quando foi comprada pela Astra Oil. A Astra pagou uma inexpressiva quantia pela refinaria: US$45,2 milhões pela refinaria e seus estoques de petróleo, mas assumiu uma dívida de US$ 300 milhões e investiu mais US$ 100 milhões para poder pô-la em operação.

Em 2006, ainda antes da descoberta do pré-sal, antes da construção da Refinaria Potiguar Clara Camarão e antes da crise de 2008 nos USA, a Petrobrás compra 50% das ações da Astra Oil. Naquela ocasião, foram pagos US$ 190 milhões pela refinaria e US$ 170 milhões pela reserva de estoque da refinaria. Um desentendimento entre as duas parceiras (a capacidade de investimentos da Petrobrás na refinaria era maior do que a Astra Oil pretendia investir) chegou à justiça americana. Em 2010 a Corte Federal de Houston determina que a Petrobrás compre os restantes 50% da refinaria. Num acordo extra-judicial, a refinaria é comprada em 2012. A Petrobrás esclarece que no total, “foram desembolsados US$ 554 milhões com a compra de 100% das ações da PRSI-Refinaria e US$ 341 milhões por 100% das quotas da companhia de trading (comercializadora de petróleo e derivados ), totalizando US$ 895 milhões. Adicionalmente, houve o gasto de US$ 354 milhões com juros, empréstimos e garantias, despesas legais e complemento do acordo com a Astra. Desta forma, o total desembolsado com o negócio Pasadena foi de US$ 1,249 bilhão.” As negociações foram conduzidas por Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa.

O fato é que a Petrobrás foi francamente prejudicada pela justiça norte-americana, primeiro, e pelos valores arbitrados, depois.

Operação lava-jato
Em março de 2014. A Polícia Federal, investigando as operações de lavagem de dinheiro do doleiro Alberto Youssef (Operação Lava-Jato), chegou a Paulo Roberto Costa, que fora diretor da Petrobrás até 2012. Paulo Roberto Costa, engenheiro mecânico, era funcionário de carreira desde 1978. Desde 1995, durante o governo Fernando Henrique, Costa teve cargos de direção na empresa. Por indicação do próprio presidente, tornou-se diretor da Gaspetro e depois Diretor de Abastecimento da Petrobrás. No atual governo, era indicação do PP. Dele dependia a aprovação para a construção de gasodutos, refinarias, plataformas, etc.

Paulo Roberto Costa utilizava-se de Youssef para lavar dinheiro que era fruto de propina paga por grandes empreiteiras. A PF já apreendeu mais de 700 milhões de reais desse dinheiro. As grandes empreiteiras (OAS, Queiroz Galvão, Mendes Júnior, Galvão Engenharia, IESA Óleo e Gás, Engevis, UTC, Camargo Correa) atuavam de forma cartelizada, sobrefaturando preços. Para poder agir livremente, pagavam propina a Costa.

Nestor Cerveró curiosamente também tem cargos de diretoria na Petrobrás desde 1995, sob o governo Fernando Henrique. Cerveró é acusado de ter recebido 15 milhões de dólares de propina do Estaleiro Samsung Heavy Industries da Coréia do Sul para comprar um navio para a Petrobrás.

A grande imprensa fez e ainda faz sobre essa questão um alarde extraordinário. Não que não merecessem destaque. Mas confundiu-se a atuação individual de pessoas corruptas com a instituição Petrobrás e com o governo. O que deveria ser um caso de polícia é usado para forjar uma crise política. O objetivo parece evidente: desacreditar a Petrobrás e atingir a Presidente Dilma, que, em 2006 era do Conselho de Administração da empresa. Fabricam-se crises políticas a partir de atos individuais. Em uma orquestração envolvendo o grande capital internacional e interesses nacionais mesquinhos, articula-se a desestabilização do governo e articula-se um golpe. 

Moody’s
Na última semana de fevereiro deste ano, a agência de classificação de risco Moody’s rebaixou a nota da Petrobrás para grau especulativo. Com isso, as ações da empresa despencaram. A Petrobrás não está quebrando. Estão tentando quebra-la, ou pelo menos enfraquecê-la para privatizá-la e internacionalizar seu capital. Para isso é necessário também a desestabilização política.

Aqui, os entreguistas (que por acaso também são os que articulam a desestabilização política) continuam na ativa. O senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), um dos mais ferozes, apresentou um projeto (PLS 214/2014) para acabar com o sistema de partilha na exploração do pré-sal. Na prática, isto significa abrir a exploração do pré-sal para as grandes corporações estrangeiras.

A quem interessa a crise? Quando os governos não correspondem aos interesses dos poderosos, esses governos devem cair. Os golpes, hoje, tendem a ser “golpes brancos”, com menor uso da força, geralmente numa atuação conjunta do judiciário, imprensa e setores conservadores do parlamento.

Os exemplos estão aí: Manuel Zelaya, Honduras (2009), acusado de “desobedecer leis”; Fernando Lugo, Paraguai (2012), acusado de “mau desempenho”. Em ambos os casos fabricou-se uma crise política que levou a uma desestabilização e a derrubada do poder. Em outros casos as tentativas de desestabilização ainda não surtiram efeito: Rafael Correa no Equador, Hugo Chaves e Nicolás Maduro na Venezuela, Cristina Kirchner na Argentina e, Lula e Dilma no Brasil.

No nosso país os velhos entreguistas continuam vivos. Os herdeiros da UDN e de Carlos Lacerda estão aí, abrigados em novas siglas, preparados para dar o bote. O faminto capital internacional saliva diante da Petrobrás.

É necessário que todo cidadão consciente assuma a luta pela Petrobrás e reúna toda a foça que puder para evitar o golpe.

Notas
[1] Eliana Yunes em entrevista concedida a IHU on-line. Disponível em http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2374&secao=284
[2]http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/AEraVargas2/artigos/EleVoltou/PoliticaExterna

segunda-feira, 2 de março de 2015

Oração da educação de tempo integral

Alexander Martins Vianna
Uma educação de tempo integral significa uma outra concepção de escola. Entre outras coisas, trazer para dentro dela atividades que, atualmente, a classe média apertadamente consegue dar aos seus filhos, mas não a maioria da população. A educação de tempo integral não é prisão. Quem disse que os espaços de descobertas e liberdade não podem ser as escolas? Afinal, é um lugar de encontros de múltiplos horizontes, experiências e paradigmas. O problema é que há professores que estão pensando este assunto de forma antiga: a partir da experiência ruim do que existe hoje nas escolas, em vez de projetarem novos horizontes de expectativas para as suas práticas profissionais e para os espaços de experiências de trabalho.

O fato social que não podemos esquecer é que a escola de quatro horas é socialmente excludente: demanda uma presença de família e recursos materiais na família que faltam à maioria da população. E supor que numa sociedade urbano-industrial a preparação para a vida adulta está completamente na mão da família me faz pensar numa visão muito aristocrática, “à la Ancien Régime”, na forma de pensar o processo educacional como algo eminentemente doméstico e/ou vicinal-corporativo. Uma educação de tempo integral é fundamental para provocarmos algum nivelamento nos pontos de partidas de nossas crianças.

Uma escola de quatro horas pressupõe famílias e recursos de classe média que supram o que, na prática, a escola deveria oferecer, considerando a carga de impostos que pagamos. Uma escola de quatro horas exige empregada, babá, creche, vizinha, sogra, cunhada ou que simplesmente um dos cônjuges (geralmente a "mulher") não trabalhe, ou trabalhe meio-expediente, sendo apenas "renda complementar" (i.e., sem soberania financeira), para que haja alguém para estar com as crianças quando ambos os pais não podem. E sabemos que muitas crianças nas escolas públicas atuais não contam com ambos os pais na rotina doméstica – muitas são criadas por avós. Parece que, até o momento, quem é contra a educação de tempo integral está pensando a escola apenas como um sistema prisional. É um erro de concepção. Este não pode ser o parâmetro para se pensar a educação de tempo integral.

A educação de tempo integral é mais do que ampliar horário de permanência de professor e aluno na escola. Para ser viável, toda a estrutura escolar do Brasil deve mudar, tanto a forma de conceber a integração de atividades na escola quanto o próprio espaço escolar, a carreira docente e a sua forma de ocupação de carga horária, de modo que seu trabalho na escola não seja apenas "dar aula" em turmas superlotadas, ou se fazer com que trabalhar numa escola se torne um sistema prisional disfarçado. A educação de tempo integral exige produção acadêmica dos docentes, ou seja, tempo para refletir, estudar e produzir sobre suas práticas localizadas na escola, devendo tudo isso ser contado em sua carga horária.

A educação de tempo integral demanda saídas programadas e guiadas do espaço escolar – trabalhos de campo – para vivências desafiadoras, práticas ou aplicáveis de algumas formas escolarizadas de saberes; ou a possibilidade da fruição de exposições de arte ou de outra natureza, por exemplo, que um professor poderia incluir “como cotas de eventos” em sua programação como atividade extraclasse de seus alunos, mas integrada a processos ou objetivos pedagógicos de sua área de saber. Afinal, de que adianta, por exemplo, uma “aula de arte” sem fruição de espaços de arte para além da escola? Portanto, a educação de tempo integral demanda a integração de processos, tempos e espaços de um modo organicamente estruturado com a reformulação da carreira docente, de modo que o trabalho efetivo de preparação para a integração de processos esteja contabilizado em sua carga horária. Isso seria fundamental para que a prática atual – isolada e assistemática – de alguns docentes deixasse de ser improvisada ou uma batalha constante contra uma estrutura ingrata, para se tornar, efetivamente, parte da rotina escolar e de sua carga horária. Afinal, tudo isso exige preparação, tempo e estudo.

Para que a educação de tempo integral seja viável, o docente do ensino básico precisa de um plano de carreira, progressões, responsabilidades, sistemas de aferição de mérito e exigências análogas àquelas dos professores universitários das instituições federais. Portanto, não pode haver superlotação de turmas, mas sim um teto de orientação educacional por professor. A educação de tempo integral é cara e necessária, feita por profissionais caros, qualificados e adequadamente responsabilizados pelo resultado de seus trabalhos. Investir nisso é mais socialmente lucrativo do que salvar banqueiros, sustentar a corrupção ou manter benesses exorbitantes para os “representantes” políticos da população e os togados do judiciário, que se comportam como casta num país tão desigual e socialmente violento.

Para que a educação de tempo integral seja viável, a escola não pode ser precarizada, nem seu docente, nem sua carreira; não deve haver superlotação de turmas, mas uma relação qualitativa de acompanhamento de discentes por docentes, o que torna a condição de D.E. uma possibilidade lógica deste tipo de carreira. Propostas que não ornem com isso serão simples adaptações à precariedade preexistente, mas com um novo desenho de carga horária docente. Isso seria mais uma mentira institucionalizada, como tantas que andam por aí neste país de fábulas olímpicas. A escola deve valorizar as áreas de formação de seus docentes, em vez de diluí-las em generalidades que não dialogam com os centros de formação de ondem vieram, de modo a ampliar o diálogo efetivo entre produção universitária e produção escolar.

Definitivamente, educação de tempo integral não é isso que se tem vinculado nos debates que tenho observado nas redes sociais, com professores desistindo da ideia porque tem sido mal concebida e/ou mal debatida pelas secretarias de educação e sindicatos. Então, penso que os professores do ensino básico precisam de uma reflexão de carreira mais séria; que isso seja encampado efetivamente pelos seus sindicatos. Isso não pode ser feito a partir do que já existe, pois o que existe não funciona, precariza, adoece e mata nossos docentes – ou torna cínicos e céticos adaptados os muitos sobreviventes desta “máquina de moer ossos”. Precisamos construir novos horizontes de carreiras, responsabilidades, espaços e dinâmicas escolares; precisamos que isso seja política de estado e não de partido; precisamos que os sindicatos representem os professores nisso – que não sejam apenas sucursais de agendas de partidos políticos.

Os argumentos que tenho ouvido de alguns docentes são bem sintomáticos da violência estrutural a que estão submetidos: esvaziam a si mesmos como protagonistas do processo, empurrando-se para argumentos céticos, ou em chave de destino (o "Brasil é assim mesmo", o "no Brasil tudo muda para ficar do mesmo jeito", etc). Imaginem o tipo de prejuízo ético de longo prazo que temos ao vermos nossos professores passando esta carga de sentimento e entendimento sobre o país para seus alunos – é a tacanha “síndrome de vira-lata”, tão adequada à manutenção do status quo.

Ora, tudo isso serve apenas para reproduzir o ethos de cético-cínico, ou de mundo como destino em nossos professores – ambos os humores implicam apenas em adaptação à precariedade, como se as escolas se tornassem versões atenuadas de campos de concentração. É próprio do argumento utópico moderno provocar o olhar para além da necessidade imediata. Quem apenas se mede pela necessidade imediata, opera com ethos de sobrevivente ou de “bicho”. Por quanto tempo alguns considerarão isso suportável? Tanta violência estrutural se inscreve em seus corpos e mentes, mas é possível ir além disso – não se deixar reduzir a “bicho”. Espero que ouçam isto sem pressa. As palavras não visam a ofender, mas sim a explicitar o que me parece ser uma lógica social e comportamental que nos impomos e que ratifica as estruturas de poder, que querem justamente que não nos vejamos como protagonistas válidos na sociedade e em nossa carreira.

Quando falo em educação de tempo integral não falo do que existe ainda. O que efetivamente existe os professores já conhecem e sofrem. Falo do que precisa ser feito. Pensar para além da necessidade imediata é próprio do pensamento utópico-diatópico – que é o avesso do ceticismo conservador ou do pessimismo de “vira-lata”. Os professores do Ensino Básico e seus sindicatos devem se tornar protagonistas desta discussão. Não podem olhar o problema de dentro da precariedade atual, mas colocarem a cabeça para fora e criar novos horizontes de reflexão. O debate não deve ser descartado, mas aperfeiçoado, com mais protagonismo propositivo dos docentes.

O que tenho observado, até agora, é apenas uma reação de negação ao que está sendo proposto pelo governo, mas não uma ação de reflexão pungente e consistente sobre uma alternativa de efetiva viabilização. A maioria está abordando o assunto a partir da precariedade preexistente, em vez de refletir sobre o tipo de precariedade que deve ser superado para que a educação de tempo integral seja concebida com efetiva integração de fatores e processos visando ao desenvolvimento humano. Precisamos ser ousados na reflexão e na proposta, não desistir da ideia somente porque está sendo mal concebida ou mal apresentada pelos agentes do governo. É disto que falo. Falar que é utopia (no sentido de impossível) é desistir sem lutar. Neste caso, o que resta é alarido, alarido cético ou com pretensões de destino, ou um melancólico e fétido silêncio de pântano.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Memória gaúcha entre goteiras e farelos: o acervo do museu Hipólito pede socorro

Rafael Lapuente
O descaso do setor público com a preservação da memória não é novidade no Brasil nem nos demais estados que compõe a federação. Deste descaso, não escapa nem o Rio Grande do Sul, onde é muito comum gaúchos propalarem aos quatro ventos o orgulho por sua história, por seu passado e por sua cultura. O leitor mais atento a atuação dos grandes meios de comunicação e as ações promovidas pelo Governo do Estado, certamente, poderia me desmentir ao argumentar as comemorações que, anualmente, tomam o estado para relembrar a guerra republicana de 1835, onde os membros do tradicionalismo gaúcho explanam seu culto ao que chama de valores e tradições do estado, ou outras ações nem sempre encabeçadas pelo governo estadual, como a anual Feira do Livro de Porto Alegre promovida pela prefeitura municipal.

Todavia, se fizermos uma análise mais profunda – que desconsidere a criação de novos memoriais como o dopinha e o de Luiz Carlos Prestes, onde não sabemos como o estado atuará no longo prazo em sua manutenção - é calamitosa a situação dos patrimônios já existentes que deveriam preservar a memória gaúcha. Além de estarmos com a centenária Biblioteca Pública estadual em reforma desde 2006 e sem previsão para conclusão, com todo seu acervo deslocado em um atendimento improvisado na Casa de Cultura Mário Quintana, o funcionamento arcaico e limitado do Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul sem nenhuma perspectiva de informatização dos catálogos e com incapacidade para receber mais do que quatro pesquisadores por turno, a venda do centenário Castelo de Pedras Altas com uma riquíssima biblioteca e documentos pessoais importantes para conhecer a história econômica e política regional, oferecido ao governo do estado e procrastinada uma posição de compra e conservação dos materiais presentes no castelo, também o maior acervo de jornais do Rio Grande do Sul, que possui periódicos de desde o início do século XIX está em situação periclitante.
 
O Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, localizado bem no centro da cidade e antiga sede do jornal republicano A Federação, vem passando por severas dificuldades em manter a integridade do seu acervo e o funcionamento do setor, que atende pesquisadores pertencentes desde o ensino médio ao doutorado, abarcando diversas áreas, como direito, jornalismo, história, publicidade e propaganda, sociologia, marketing, ciência política e muitos outros cursos. A imensidão da tarefa de manter o acervo hoje é atendida com apenas um funcionário, encarregado de tomar conta da organização dos periódicos no arquivo e do atendimento ao público externo, sendo provavelmente o setor que mais recebe visitas no museu – vale lembrar que o museu tem outros setores importantíssimo, como de fotografia, cinema, rádio, exposições temporárias e permanentes e atendimento a comunidade em geral, recebendo atividades artísticas e culturais diversas durante todos os dias da semana.

Além disso, a falta de estrutura é particularmente a pior que este pesquisador já viu. Com umidade e nenhum controle termostato, o prédio sofre fortes infiltrações nas paredes, que acelera o processo de decomposição dos jornais. Não obstante, os pesquisadores que frequentam o museu não recebem a estrutura adequada para realizar suas atividades científicas: Hoje o Museu não dispõe de luvas descartáveis, máscaras ou álcool em gel para os profissionais que acessam jornais com ácaros e fungos, muitos deles com mais de 70, 80, 100 anos desde sua circulação.

A situação estrutural do museu é tão preocupante que centenas de jornais estão expostos na sala de pesquisa, secando de goteiras advindas de um forte temporal que assolou Porto Alegre e atingiu periódicos como O Pasquim, Correio do Povo, Folha da Tarde, Diário de Notícias, A Ordem, O Pioneiro, Zero Hora, A Federação e outros jornais, sendo que muitos dos jornais atendidos, provavelmente, sejam os últimos exemplares disponíveis para a pesquisa, como possivelmente ocorreria se fossem destruídos os exemplares do periódico O Povo, jornal farrapo raríssimo que compõe o estoque do Museu. Sua extinção, assim como de outros jornais que tiveram duração extensa ou efêmera significaria a inacessibilidade para pesquisas futuras.

A questão pessoal prejudica o museu: A Secretaria da Cultura, hoje comandada pelo secretário Victor Hugo e ao qual o Museu Hipólito é subordinado, há anos não realiza concurso para repor pessoal. Com apenas um funcionário efetivo, quando ocorre a ausência de estagiários o setor de imprensa funciona em apenas um turno. Essa semana, o museu anunciou que atenderia o setor de imprensa apenas nas terças, quartas e quintas-feiras a tarde por não ter pessoal. O que é mais alarmante é que o setor está abrindo graças a disponibilização voluntária do único funcionário que está gozando de férias, mas para não deixar a área fechada segue realizando suas atividades. Além disso, a transição política ocorrida no estado limita ainda mais o raio de pressão e representação do museu perante a secretaria, afinal desde que José Ivo Sartori assumiu a governança estadual o museu segue sem diretor nomeado. No início do ano, até mesmo internet e telefone estiveram temporariamente suspensas por falta de pagamento.

Afora estes problemas, os jornais manuseados sofrem danificações naturais dos usos constantes. Muitos jornais estão se esfacelando sem nenhum projeto de restauro. Outros, esfarelados a ponto de serem retirados da disponibilidade dos pesquisadores, se encontram em separado para uma futura e imprevista restauração. O Museu Hipólito ainda conta com alguns jornais microfilmados, porém, a máquina de microfilme se encontra com defeito.
 
A realidade que passa o Museu de Comunicação é bastante preocupante. O desleixo do executivo estadual com a manutenção dos jornais – que não são apenas do Rio Grande do Sul: Há jornais do centro do país e de diversos países nas mais variadas épocas – é enorme, o que demonstra também que o pouco interesse pela preservação da memória pelas instituições do estado. Até mesmo uma ação do Ministério Público que percorre contra o governo gaúcho se perlonga desde 2008. Neste ponto, não há dúvidas que o Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa pede socorro.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Hipovalência social do docente no Ensino Básico

Alexander Martins Vianna
Falar de sintomas de “crise nas humanidades” no Brasil, usando exemplos de países desenvolvidos como os EUA, como se faz no artigo de Keila Grinberg para a revista Ciência Hoje, não aumenta em nada a informação sobre o tema no Brasil – que, aliás, teve uma expansão das licenciaturas, particularmente em Humanidades, entre 2002 e 2010. O tipo de paralelo feito em seu artigo é pouco consistente, impressionista (basta observar os recursos retóricos do texto) e não acrescenta nada à discussão sobre o assunto pretendido: 70% do seu artigo não leva a nenhuma reflexão crítica sobre a situação estrutural de empregos e nichos de trabalho no Brasil para bacharéis e licenciados em História. A impressão que tenho é que o artigo apenas "preenche pauta" de redação para a revista Ciência Hoje – um rito burocrático de pouco impacto social, tal como se tem feito com as metas produtivistas autorreferidas nos sistemas de avaliação de programas de pós-graduação no Brasil.

A situação de melhor empregabilidade e diversidade de nichos de trabalho para bacharéis e licenciados em História não se resolve simplesmente com a ampliação de pós-graduações profissionais em História, com a criação de disciplinas instrumentais sobre patrimônio histórico ou com o acréscimo de disciplinas de Relações Internacionais em cursos de História, ou com a ratificação social de parcerias de escrita professor/aluno para artigos em revistas acadêmicas de Humanidades. Isso é pensar o problema de um ponto de vista já comprometido, ou seja, de quem se coloca como “centro de oferta de saber” – i.e., o professor universitário das instituições públicas – e, no caso de quem escreve o artigo para a Ciência Hoje, ainda fico com a forte impressão de que o assunto é abordado e moldado para caber num ponto de vista legitimador da estrutura já existente na UNIRIO. Portanto, trata-se de uma fala comprometida apenas com a legitimação de um nicho institucional específico de trabalho – ou seja, não olha para além disso, o que explica a reação ao artigo no sítio da revista.

Em todo caso, o artigo gira apenas em torno de sintomas – mas não é ousado na (auto-)crítica. Ora, não se avança em hipóteses causais consistentes sobre tal assunto sem que o dedo indicador da crítica não esteja também acompanhado pelo polegar da responsabilização social. Nós temos um enorme déficit docente no Brasil, um déficit qualitativo, no seguinte sentido: a carreira docente tem sido concebida e praticada no sistema público do Ensino Básico com baixíssima valência social. As escolas empregam mais do que museus, centros de pesquisas e outros nichos externos à escola pública. Então, é fugir do problema pensar em outros campos de trabalho para o historiador (pós-graduado) que não a universidade sem antes combater por melhoraria nas valências social, política e intelectual do principal nicho de emprego dos historiadores graduados e pós-graduados que formamos: o Ensino Básico público.

Aliás, é impressionista e pouco consistente dizer categoricamente que a maioria dos historiadores com pós-graduação quer ser professor universitário. Quem já trabalha com ensino básico não tem apoio efetivo das secretarias de educação estaduais e municipais para ter formação continuada em pós-graduação, mas muitos gostariam de fazer a pós-graduação para voltar com tal experiência para suas escolas. As pós-graduações profissionais voltadas para tais professores abriram tal oportunidade, mas, paradoxalmente, se, por um lado, o governo federal libera bolsas para pós-graduação profissional, por outro lado, as secretarias estaduais e municipais de educação não liberam, estimulam ou apoiam os professores do Ensino Básico a buscar formação continuada em pós-graduação de qualquer espécie. Então, em larga medida, os poucos que ousam trilhar a pós-graduação se obrigam a rotinas hercúleas para manter as suas atividades na escola e na pós-graduação – rotinas que alguns professores universitários sequer sonhariam em manter em suas vidas.

O fato é que o principal nicho de emprego para nossos graduados e pós-graduados é concebido pelo poder público para massacrar e desestimular a busca pela formação continuada, além de emperrar, paradoxalmente, a plena aplicação de suas competências no espaço escolar. Então, não acredito que faltam competências em nossos graduados e pós-graduados para ensino de História. Fica completamente sem contexto pensar métodos e técnicas para “Ensino de...(qualquer coisa)” se o ambiente de trabalho é estruturalmente hostil à sua prática e formação intelectuais. Sempre fico aborrecido com professores universitários de “Ensino de...” que pensam em fórmulas mirabolantes para ensino, mas se alienam do ambiente efetivo que seus alunos terão para trabalho. No fundo, parece que o problema do Ensino se torna uma questão de competência técnica do indivíduo, havendo pouca reflexão filosófica sobre a natureza do pensamento histórico pretendido para a História Ensinada – reflexão que não pode ser panaceia para a adaptação à precariedade. O ambiente escolar socialmente hostil ao trabalho intelectual do docente precisa desaparecer para que a reflexão e a prática de ensino sejam frutíferas, caso contrário, “Ensino de...” vai se tornar “autoajuda” para os “mais esforçados” – e sabemos “que o vencedor vive só”...com suas batatas...

Penso que falta muito espaço social digno e retributivo para o trabalho intelectual que é ensinar – coisa que parece andar muito esquecida pelo poder público. Eu adoraria trabalhar no Ensino Básico – como já o fiz –, se este fosse efetivamente dignificante e intelectualmente retributivo. É sintoma de distorção estrutural o entendimento de que o magistério superior seja a única alternativa para uma relação dignificante e intelectualmente retributiva com o ensino e a pesquisa. A escola pode ser um grande laboratório; e muitos de nossos (pós-)graduados poderiam fazer brilhantes intervenções em tais espaços se não fossem tão precarizados e imbecilizados na forma de aferir responsabilidade e mérito escolar. Tal precarização cria problemas estruturais e éticos sérios, de longo prazo, no jogo da responsabilidade social contido neste tipo de trabalho.

Eu saberia perfeitamente ser professor do Ensino Básico e, ao mesmo tempo, transformar tal ambiente em objeto de estudo e promotor de métodos pedagógico em História – mas a estrutura escolar profissional efetiva não permite isso (muito raramente nos CAPs federais e IFs), o que torna uma hipocrisia institucionalizada a “PÁTRIA EDUCADORA” enfatizar pós-graduações profissionais ou licenciaturas que terão ótimos profissionais para atuarem num ambiente social hostil à sua formação: as escolas públicas municipais e estaduais do Brasil, com raríssimas exceções. Devemos nos perguntar por que a nossa estrutura de ensino público das esferas municipais e estaduais (o principal nicho de trabalho para os historiadores) se tornaram ambientes hostis ao trabalho e ao desenvolvimento intelectual do graduado e do pós-graduado de História. Por que nossos alunos, que saem das universidades cheios de sonhos e ideais, se tornam, em tal ambiente de trabalho, um animal doentio e hipovalente? Não se trata de um problema de responsabilidade individual apenas, mas de um problema estrutural que deve ser politicamente enfrentado, pois está evidente que não temos política de Estado séria e integrada para a Educação como um tudo.

Há uma “máquina de moer ossos” – para parafrasear o poeta e historiador Alberto Lins Caldas – que precisa ser contida: o fato de ainda formarmos bons alunos de História na Universidade Pública, mas estes serem destruídos física, social e moralmente por uma lógica estrutural de (des)trabalho que não acolhe a boa formação que a universidade pública ainda oferece, criando descontinuação ou falta de integração dos fatores de desenvolvimento humano – ou seja, desperdício de recursos materiais e imateriais. Os cursos de História (e demais licenciaturas, bacharelados e pós-graduações em Humanidades e Artes) perecerão em relevância social se o Ensino Básico (leia-se: o poder público) não mudar a valência social e intelectual de seus profissionais, com a reconfiguração da carreira e exigências de responsabilidades condizentes com tal reconfiguração, na qual a autonomia intelectual do docente não seja suprimida por sistemas de avaliações tecnicistas, imbecis e equivocados que não ponderam a necessidade de reformular o tempo na escola, a lógica de ocupação de turmas e a integração planejada de atividades quando se pensa numa forma de avaliação (e, portanto, num ponderador sociocultural de mérito).

Como um profissional de ensino poderá efetivamente se envolver com tanta responsabilidade se não estiver numa estrutura de D.E. que não implique em precarização, mas sim em efetiva viabilização de sua permanência qualificada nas escolas, entre aulas e projetos que efetivamente integrem a criação de processos educativos e produção (acadêmica e/ou técnica) em sua carga horária? O nosso horizonte deve ser a escola pública de tempo integral que respeite as áreas de formação acadêmica dos docentes, em que o sistema de avaliação, as turmas e as suas atividades integrem-se e correspondam-se com a natureza das áreas de conhecimento dos docentes.

É sintoma de precariedade de futuro um país manter seus docentes com uma identidade social e intelectual hipovalente. O professor universitário que não entrar neste combate também está inviabilizando o seu futuro profissional. Muitos precisam quebrar os seus espelhos de narciso, revolver a superfície d’água, redescobrir a lama, para perceberem as distorções e desintegrações estruturais em que vivem e trabalham. Não podemos continuar alienados das consequências. Não podemos nos acomodar à ideia de que já “demos a boa formação e o resto é com eles”. “Boa formação universitária” não reverbera se o principal nicho de trabalho de nossos alunos continuar hostil à sua prática e formação profissional-intelectual. Não podemos esquecer que Narciso morreu de inanição!... Se a estrutura de poder passar incólume na forma como esvazia socialmente a relevância do principal nicho de trabalho de nossos alunos de graduação e pós-graduação, nós também perderemos relevância. Os colegas de Letras sabem bem disso: Com o fim da obrigatoriedade do ensino de Literatura nas escolas públicas, muitos cursos de Letras do Brasil estão se tornando “cursos de línguas” (i.e., cursos de tecnólogos de línguas que não gostam de Literatura, em que Linguística se tornou um campo completamente distinto de Literatura – algo que seria muito estranho ao intelectual com o qual mais dialogam desde a década de 1970: Mikhail Bakhtin).

Pouco adianta refletir sobre métodos de ensino mirabolantes e pós-graduações profissionais, ou disciplinas instrumentais miraculosas nas graduações, se estamos formando nossos alunos para um ambiente hostil ao seu trabalho intelectual. Ensinar com qualidade significa um permanente trabalho intelectual, a valorização do tempo para estudo dos docentes – é lastimável e sintomático que tal truísmo tenha de ser dito às secretarias de educação municipais e estaduais do Brasil!... O professor do Ensino Básico não deveria precisar lutar pelo básico, ou deixar de receber salários, enquanto juízes e deputados recebem salários exorbitantes. Isso é uma vergonha nacional! O país entra em recessão e sacrifica médicos e professores! Portanto, ainda estamos muito atrasados para comparar nossos problemas com os norte-americanos. Nem nos aproximamos ainda dos Tigres Asiáticos... Estamos perdendo este bonde da História... E, embora história não seja destino, pode se tornar uma grande fábula no nosso “país do futuro” de presentes tão cruéis e precários...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

“Ovelhas, lobos e pastores”: o que quer o Sniper Americano?

Fabiana Mathias - COLUNA CINEPRÁXIS
[Texto sem spoilers]
Você já deve ter conversado com um amigo que falou por horas de um assunto que para ele parecia importante, foi, veio, mil reviravoltas, mas ao chegar ao final da conversa você não entende realmente qual era o drama, a aventura, a polêmica naquilo que ele lhe contou, restou, portanto, fazer uma cara de interessado e lançar no ar algo que ficou entre um grunhido “uhum” ou “bah, que coisa né?”, este jogando ao outro a responsabilidade por emendar o assunto com outros detalhes ou simplesmente ficar contente com sua surpresa, mesmo que seja ela falsa.

O filme Sniper Americano (2015), dirigido por Clint Eastwood, se mostra uma conversa vazia a qual do início ao fim você fica tentando entender a importância, a intenção, por que se gastou dinheiro com este filme, não é atoa que depois de três semanas entre os mais vistos nos cinemas dos EUA, foi superado por nada mais nada menos que Bob Esponja – um herói fora d´água.
 
Hollywood é muitas vezes uma máquina de propaganda do Estado ou como diz o filósofo Slavoj Žižek mais explicitamente “Hollywood é o aparelho ideológico do capitalismo”. Mas Sniper é com certeza um ponto de interrogação na tela: “qual a intenção deste filme?”. Que é uma propaganda pró militares, pró guerra, pró pensamento republicano isso fica claro, mas por que um diretor consagrado pela pluralidade de produções como Eastwood aceitou fazê-lo? Mesmo ele sendo republicano dá para desconfiar, afinal, Steven Spielberg antes dele desistiu de rodar o filme.
 
Podemos pensar como diz Bergan (2011), que se trata de um filme de “propaganda”, um filme em formato documental, disfarçado de drama que tenta transmitir uma suposta mensagem, entretanto, o mesmo autor lembra que essa propaganda, que passa a ideia de que a “câmera não mente” é usada para passar verdades pessoais, interesses políticos, como ele mostra usando os filmes de Leni Riefenstahl usados como propaganda nazista. Por outro lado podemos também considerar o filme meramente “escapista”, pois traz personagens simples, uma narrativa de fácil solução dramatúrgica onde o “herói” apenas age sem trazer problemas para o espectador pensar os “porquês”.
 
Sniper não é documental, sem dúvida que não, pois o cinema documental, quando usa a guerra como objeto de sua lente, tem sido importante para barrar o simplismo de ver a guerra como natural ao ser humano, obras como “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola, “Que delícia de guerra!” de Richard Attenborough, “Vá e veja”, de Elem Klimov, este último excelente, entre outros, trazem a guerra como a própria desumanização.
 
Sniper continua a tradição de filmes que foi bastante alimentada nos anos 1980 em que um militar americano, sozinho ou com sua equipe, vão para territórios estrangeiros matam e destroem tudo que vem pela frente sem se importar, como se estivesse no quintal de suas casas, com a diferença mais perigosa ainda de que Sniper é biográfico. Talvez o trauma do fracasso no Vietnã tenha criado o personagem militar invencível, da década posterior à guerra, mostrados nestes filmes. Durante todos os 1980 assistimos insistentemente cenas em que um só soldado invadia um local cheio de militares inimigos e sozinho matava a todos, sem se ferir. Filmes como Rambo (1982, 1985 e 1988), em que John Rambo (Silvester Stallone), sozinho resgatou militares, destruiu exércitos, e ajudou, pasmem, o povo afegão durante a ocupação soviética, fizeram grande sucesso. Em Comandos para matar (1985), o personagem John Matrix (Arnold Schwarzenegger) invadia um fictício país da América Latina, para resgatar a filha matando todos que encontrava e destruindo tudo na sua frente afinal ele era americano. Em Comando Delta (1986), Major Scott McCoy (Chuck Norris) tentava resgatar os reféns de um avião sequestrado por árabes, assim, aleatoriamente que eles eram apresentados, mais uma vez os americanos eram chamados para salvar o mundo. Um mundo de clichês cinematográficos que serviam em 1980 e parecem servir também em 2015, quando Sniper mostra militares impiedosos com um propósito “justo” no território alheio.
 
Eastwood tenta humanizar o personagem Chris Kyle, o atirador sobre quem o filme trata, por isso usa sua relação com sua família pra construir essa imagem de “homem de bem” clássico do conservadorismo republicano, mas mesmo nisso ele peca já que a esposa do personagem é mostrada apenas como uma chorona chata, que lhe cobra presença e passa boa parte filme grávida ou então, com os filhos em sua volta. Nos anos 1980 as mulheres gritavam e eram burras, um peso para o “herói”, parece que nada mudou para Clint Eastwood. A esposa de Chris não é mostrada trabalhando, não possui amigos, nem família, é apenas um rosto perto do telefone ou da cama. Não existe um personagem ali.

O meio familiar é o único espaço onde Kyle deixa de ser o militar, embora mesmo em casa se vista como um. Esta é a única forma humana de verdade para além do cumpridor de ordens, mas não funciona como uma forma de se aproximar dele, criar empatia, se tenta servir para redimir este de mais de 160 mortes, já que a família sempre aparece após alguma cena de ação militar, é ineficiente. Pronto, com vergonha chego ao motivo dado pelos estúdios para acharem necessário filmar esta história. 

Sniper é a história do militar responsável por matar o maior número de pessoas em uma guerra em que os Estados Unidos esteve envolvido.
 
Talvez a intenção seja mesmo, que a população dos EUA, que vem passando por uma crescente fase de empobrecimento, uma população no limite desde os governos George Bush, leia como quiser o filme e, por fim, encontre o “inimigo”, o “culpado”, ou como diz o pai de Kyle, quem “deve ser curado do mal”.
 
Atualmente 13,6% da população dos EUA vivem abaixo da linha da pobreza. Em 2010 foram estimados 46,2 milhões de americanos na pobreza, o maior número no país após a Segunda Guerra Mundial.
 
Não é de hoje na história que a propaganda e o cinema serviram para buscar culpados, inimigos ou povos para serem curados de seus maus, “bodes expiatórios” enfim. Este ano faz 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial e não foi pequeno o arsenal de propaganda de convencimento anticomunista, antissemita, racialista  disseminado na época para justificar o mal que foi feito. Com o fim do governo Bush a aprovação da população para ações militares caiu vertiginosamente e aumentaram o número de escândalos sobre os desmandos das tropas no exterior, para reatar os laços da sociedade com o Estado militarista americano seria mesmo necessário reativar mitos, heróis, valores, dar motivos para que, esta que a maior fonte de crescimento econômico dos EUA, a indústria bélica, encontre um novo mercado.
 
Não pretendo dar spoilers, mas expor em elementos políticos e psicológicos o que o filme traz, até mesmo porque ao contrário dos filmes A conquista da honra e Cartas de Iwo Jima, filmes considerados antimilitaristas de Eastwood, este não tem a possibilidade de ser analisado sob outro viés.
 
Assim como o filme Tropa de Elite foi glorificado pelos motivos errados, pois era um filme que denunciava a situação da segurança brasileira, a pobreza, violência e a corrupção, mas acabou servindo muito mais como uma propaganda pró militarização da polícia, Sniper tenta ser mais uma hipnose americana de patriotismo.
 
O título deste artigo “Ovelhas, lobos e pastores”, vem de uma fala inicial do filme, vale a pena ver que ali, e só ali, o personagem que a reproduz, o pai de Chris, em suas falas bem como suas ações, é mostrado com um americano insano, com seu sotaque forte, sua dominação patriarcal, sua frieza, um sulista, (olha que inovador, sempre só o sul do país é tido como historicamente incoerente no cinema), é mostrado como um homem violento, todos os outros que matam, agridem, ensinam a agredir tem um “propósito maior”.
 
Outro fato que chama atenção é a repetição de frases clichê como “cumprir ordens”, “pela pátria e família”, que parecem destoar, ficam mecânicas na tela, quase patéticas de se ouvir. Suponho que elas sejam de uso comum no mundo militar, mas mesmo assim não funcionam mais como antes pelo próprio vazio político que possuem.
 
A escolha - nem tão escolha assim, já que ele é produtor do filme - do ator Bradley Cooper, para o papel do atirador Chris Kyle é, por um lado, bem pensada, pois ele é um ator de grande carisma na indústria do cinema, e por outro é bastante limitada, pois Bradley passa a maior parte do filme com a mesma expressão tensa que acredito ter a intenção de ser a interpretação de um cara que guarda dentro de si uma vida de opressão paterna e uma objetividade vazia como só os militares que acreditam que lutam em guerras pela pátria devem ter.
 
Um elemento que incomoda mesmo historicamente é em que momento nenhum se justifica o que os militares foram fazer naquele território de modo mais profundo para além da imagem do 11 de setembro. Não se abre discussão sobre isso em momento algum do filme, não existe crítica a toda farsa que envolve as tropas no Iraque.
 
O Iraque em questão é nomeado uma ou duas vezes e depois perde o nome dando lugar a exclamações como “que se foda esse lugar”, “lugar esquecido”, etc. Tornando-se uma espécie de não-lugar, de Marc Augé, onde não existem história, cultura, identidade, portanto, onde tudo é possível.
 
Outro elemento que achei complicado é a menção feita a AKG “uma granada russa”, exatamente desta forma. Posso nunca ter estado numa guerra, mas fiquei pensando: É possível em cada ação militar, ficar anunciando a origem do armamento? Isso é necessário? Dá tempo? Será que sim ou esta é mais uma das mensagens subliminares sobre quem é “o grande Outro”, o inimigo invisível norte-americano?

Outro elemento que pode vir de meu desconhecimento ou excesso de imagens de noticiários de ações militares dos EUA é: por que em todas as cenas os tiros eram dados no peito dos iraquianos? Um tiro errado no peito possibilita que a pessoa, se bem resignada - e ninguém questiona a resignação das pessoas em guerras - ainda reaja, atire, jogue um explosivo, mesmo que por reflexo. Em todas as imagens de guerra as pessoas mortas pelos fuzileiros estão com suas cabeças aos pedaços, ninguém reage com um projétil na cabeça, ou as vejo como um amontoado de carne, pois a munição usada é feita para garantir a morte instantânea e violenta, por vezes se projetando em vários ângulos do corpo ao mesmo tempo o que no impacto despedaça a pessoa.
 
Entretanto, como não é possível criar empatia do público se você mata de forma violenta uma mulher, um idoso, uma criança, os iraquianos em Sniper morrem com uma plasticidade dramática de tiros no peito. É importante lembrar também que cada vez que um soldado americano morre na cena é difícil ver seu rosto devido a uma nuvem de areia ou câmeras agitadas. Seria mesmo perigoso constituir uma identidade do espectador com uma personagem e depois matá-lo, ninguém quer ver seu igual morrer exceto... Eu quase ia esquecendo o “porém” da minha teoria, se o personagem for muito questionador, crítico, mesmo que sejam críticas fracas, se ele não for um sujeito “agraciado com o dom da agressão” como eles mesmos mencionam, ele morrerá no filme.
Sniper também não aprofunda o quão imoral é usar a população a qualquer preço para obter informações, expondo-os a situações-limite, apenas usa isso pra tentar criar mais ódio do pretenso inimigo, joga a vilania para que outro a assuma. A população é vista como meros peões para chegar a um objetivo maior.
 
O comediante Seth Rogen escreveu no Twitter que “Sniper Americano” lembrava aquela peça de propaganda nazista de “Bastardos Inglórios”, chamada “Stolz der Nation” (“Orgulho da Nação”), e parece um pouco, exceto pelo fato de que ao menos o cinema racialista travestido de documental de Leni Riefenstahl (O triunfo da vontade), Veit Harlan (Jud Süiss), em quem Quentin Tarantino se inspirou para fazer seu “Orgulho da nação” com certeza, possuíam ao menos uma fotografia inovadora e cuidadosa e excelentes jogos de iluminação e enquadramento para vender mentiras úteis ao governo e a população alemã da época. Sniper não consegue ser isso.
 
Referência:
BERGAN, Ronald. ...Ismos, para entender o cinema. São Paulo: Ed. Globo, 2011.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

O movimentar no “tabuleiro internacional” por trás do fim do embargo cubano: uma realidade latino-americana

Gabriel Graziottin
Novos ventos soprados - Em uma era marcada pela desinformação em contraste aos avanços tecnológicos, muitas informações se perdem no ar frente a nossa falta de percepção da realidade, enquanto que os ventos soprados por Cronos passam perante nós, sem muitas vezes nos darmos conta. Desse modo, cabe utilizarmos como antídoto a essa perda de percepção histórica a constante correlação das informações que nos são despejadas cotidianamente e observarmos quais são as mudanças que vem ocorrendo no mundo, especificamente, no “tabuleiro internacional”, para assim, podermos tirar as nossas conclusões e construirmos um conhecimento, em detrimento de desconectadas informações.

Esses ventos soprados chegam até a nossa realidade, como latino-americanos, em um contexto que forja o fim de longos anos de embargo cubano perpetuados pelos Estados Unidos. O Fim do Embargo não é somente o “Fim do Embargo”, mas é a evidência do movimentar das peças no tabuleiro internacional, marcado por novas formulações estratégicas pelos centros de poder internacional, pela ascensão chinesa e sua posterior e efetiva presença no Caribe e América Latina.

Deixando a euforia da Revolução Cubana de lado e a longa resistência da ilha frente às ações imperialistas de Washington, devemos nos atentar o contexto que vem desenhando o fim do embargo e o jogo internacional subjacente à reaproximação estadunidense-cubana.

“O carro latino-americano e o motor chinês”: um novo ciclo - Crescimento chinês nos últimos anos; crescimento econômico dos países do Sul-Global (incluindo latino-americanos); diminuição da influência de Washington na América do Sul e parcialmente na América Central (região que também será chamada aqui de Caribe); Crise econômica nos países do norte (diga-se EUA e Europa), fim do embargo cubano, reaproximação de Washington e Havana, etc. O que todas essas informações nos têm a dizer? Se as compararmos devidamente, perceberemos reflexos de um período pós-Doutrina Monroe[1] e o aterrissar de um “dragão” nas portas do Tio Sam.

Giovanni Arrighi (2008) já assinalara que o centro do sistema capitalista global deixara de ser ocidental, transferindo-se para o leste-asiático em contraste com a desaceleração do Ocidente, vindo a reboque desse fenômeno a recente crise financeira de 2008, debilitando tanto os Estados Unidos quanto a Europa. Desse modo, esse novo centro capitalista, representado no dinamismo chinês impulsionou diferentes economias nacionais até então em situação mais vulnerável no sistema internacional, sejam asiáticas, africanas ou sul-americanas. Com isso, diferentes países latino-americanos se favoreceram com o “motor chinês” estabelecendo laços econômicos com Pequim, nos últimos anos.

A lógica do sistema capitalista é simples: a incessante reprodução do capital e de seu sistema produtivo. Assim, a China passou a explorar nos últimos anos o riquíssimo mercado de commodities, recursos energéticos e alimentares que a América Latina tem a oferecer, somando-se aos mercados nacionais crescentes, ávidos pelo made in China. Sim, a América Latina parece mais uma vez seguir a sua tradição primário-exportadora, entretanto, suas economias se favoreceram e muitos países cresceram através desses laços com Pequim.

O crescimento econômico dos países desenvolvidos, tradicionalmente os mercados de destino das exportações chinesas, desacelerou nos últimos anos. Com a crise financeira global de 2008, as economias europeias e norte-americanas passaram, inclusive, a se contrair. A fim de continuar a exportar os volumes necessários para manter seu crescimento econômico, o governo chinês se viu obrigado a diversificar seus mercados. E a AL se mostra um mercado muito atraente para a China. (CINTRA, 2013, p. 36) .

Isto é, como os Estados Unidos e a Europa não podem mais “acompanhar” o ciclo chinês de desenvolvimento como parceiros comerciais estratégicos, desse modo, o dragão crescentemente volta os seus olhos para outras regiões, especificamente a América Latina, formulando novas parcerias comerciais e desenvolvendo diversos projetos bilaterais. A tabela e o gráfico a baixo falam por si só da “carona” dos países latino-americanos no crescimento chinês. [2]

O dragão às portas do Tio Sam - Mas de que maneira podemos compreender o fim do embargo econômico a Cuba e o que está por trás dele com essa presença do gigante asiático na América Latina?

De acordo com Fiori (2015), a consequente “chegada” econômica da China ao continente sul-americano, e ao Caribe e América Central, sobretudo depois do anúncio da construção do novo Canal Interoceânico da Nicarágua, financiado e construído pelos chineses, vem gerando uma reação por parte dos Estados Unidos, preocupados com a chegada desse dragão em sua locus estratégico. O Caribe e a América Central sempre foram espaço de atuação e influência direta norte-americana, e agora, os seus interesses são ameaçados e entrelaçados com a presença chinesa na região.

Cuba é um dos principais destinos da China, realizando nos últimos anos reformas econômicas de flexibilizações de mercado e comercializando (a despeito do embargo) com os chineses.[3] Desse modo, a estratégia estadunidense é clara: contrabalancear e conter a ascensão do poder chinês em suas ações na América Latina como um movimento de poder hegemônico em seu hemisfério. Somando-se a mudança de estratégia frente a Havana, houve a maior exigência dos países da CELAC[4] pelo fim do embargo histórico a Cuba, tornando-se difícil uma falta de resposta a essa crescente pressão de seus vizinhos.

Assim, o Caribe a América do Sul revalorizam-se geopoliticamente como tabuleiros relevantes da competição global entre os Estados Unidos e a China. A aproximação estadunidense-cubana é um dos resultados dessa percepção por parte de Washington da ameaça aos seus interesses regionais pela chegada do dragão asiático às suas portas.[5] E também, pelo relativo abandono de sua participação nos assuntos latino-americanos, voltando-se então para o Oriente Médio e a Ásia.

As recentes negociações do fim do embargo e a reaproximação ente os Estados Unidos e Cuba é uma vitória para ambos os lados que desejam estreitar os seus laços comerciais e uma nova oportunidade para Washington reafirmar os seus interesses em seu espaço estratégico frente à presença de um insaciável gigante asiático. Terá tamanho fôlego para repeli-lo?  

Referências

ARRIGHI, Giovanni. Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2008.

Cintra, Maria Rita Vital Paganini. ;  Medeiros, Carlos Aguiar de, orient. A presença da China na América Latina no século XXI : suas estratégias e o impacto dessa relação para países e setores específicos / Maria Rita Vital Paganini Cintra. . Rio de Janeiro : UFRJ, 2013.

FIORI, José Luís. Geografia e Estratégia. In: Carta Maior, 25 dez. 2014.

FONTDEGLÒRIA, Xavier. China reforça sua presença econômica nos países da América Latina. In: El País, 7  jan. 2015.

VADELL, Javier. A China na América do Sul e as implicações geopolíticas do Consenso do Pacífico. Rev. Sociol. Polit. [online]. 2011, vol.19, suppl.1, pp. 57-79. ISSN 0104-4478.

Notas
[1] Doutrina elaborada pelo presidente James Monroe em 1825, pregando a não intervenção estrangeira nas Américas sob o lema de América para os americanos. Voltava-se contra o colonialismo europeu, abrindo espaço para a posterior expansão estratégica dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.
[2] “Comércio bilateral entre China e os países da CELAC”. Fonte: Nações Unidas. El País.
[3] Não só os chineses, mesmo sob o embargo oficial à ilha, comercializam com Cuba. Países europeus, sul-americanos e africanos claramente desrespeitavam o embargo, em acordos de cooperação econômica e infraestrutual.
[4] Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos.
[5] Ou como consideram muitos norte-americanos, em seu “quintal”