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sexta-feira, 17 de julho de 2015

Guerra de informação sobre a crise na Grécia

Alexander Martins Vianna
O Fato e a História publica esta reflexão sobre três documentários com abordagem crítica ao neoliberalismo como paradigma de viabilidade financeira e aos seus parâmetros de avaliação da crise grega. São eles “Catastroika” de 2012, “Dividocracia/Debtocracy” de 2011 e  “Poder em Roda Livre” de 2015. Ao fim do texto, disponibilizamos os vídeos para apreciação do leitor. Boa leitura!
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Catastroika dá o tom geral pretendido por minha crítica: faz um relato devastador sobre o impacto da privatização massiva de bens públicos e sobre toda a ideologia neoliberal que está por trás disso. Catastroika denuncia exemplos na Rússia, Chile, Inglaterra, França, Estados Unidos e na Grécia, afetando setores como transportes, água e energia. Foi produzido através de contribuições do público, contando com o testemunho de Slavoj Žižek, Naomi Klein, Luis Sepúlveda, Ken Loach, Dean Baker e Aditya Chakrabortyy. 

De forma deliberada e com uma motivação ideológica clara, os governos desses países estrangulam ou estrangularam os serviços públicos fundamentais, elegendo os funcionários públicos como bodes expiatórios, para apresentarem, em seguida, a privatização como solução óbvia e inevitável. Sacrifica-se a qualidade, a segurança e a sustentabilidade, provocando, invariavelmente, uma deterioração generalizada da qualidade de vida dos cidadãos. As consequências mais devastadoras registram-se nos países obrigados, por credores e instituições internacionais (como a Troika), a proceder a privatizações massivas, como contrapartida dos planos de «resgate». 

Catastroika evidencia, por exemplo, que o endividamento consiste numa estratégia para suspender a democracia e implementar medidas que nunca nenhum regime democrático ousou sequer propor antes de serem testadas nas ditaduras do Chile e da Turquia. O objetivo é a transferência para as mãos de poucos da riqueza gerada pela maioria dos cidadãos. Nada disto seria possível, num país democrático, sem a implementação de medidas de austeridade, que deixam a economia refém dos mecanismos de especulação e chantagem — o que implica, como na Grécia, o total aniquilamento das estruturas de sustentabilidade, coesão social e níveis de vida condignos. 

O documentário “Poder em Roda Livre”, de jornalismo econômico de Árpád Bondy e Harald Schumann, com a História da Troika e das políticas de austeridade neoliberais, desde 2010 até 2015, em Portugal, Grécia, Irlanda e Chipre. A versão aqui disponibilizada está com narração em inglês, mas com legenda em português de Victor Pinto.
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É fundamental desnaturalizarmos as categorias de percepção e avaliação neoliberais sobre este assunto; sobre o que é economicamente viável ou equilibrado financeiramente, como se sua visão de mundo não fosse relativizável ou “não-ideológica”. Isso é bem sintoma de arrogância civilizacional e miopia histórica: O paradigma que se torna hegemônico não se vê como localizável num conjunto, mas como todo o conjunto, como o “fato”, a “verdade”. Aos perdedores, as favas (i.e., a “ideologia”, a “irrelevância crítica”). Este tipo de atitude imbecilista anti-intelectual já foi abordado antes, não vou me repetir aqui. 

O fundamental é manter o horizonte aberto sobre o assunto, combater um tipo de visão rasa e presentista que não relativiza as suas categorias de percepção e avaliação de mundo, que não se enxerga como violenta e cruel, mas apenas como “a regra”. Ando de saco cheio dos técnicos econômicos imbecilistas que ficam dividindo o assunto entre “donos dos fatos” e “ideólogos desinformados”, como se os seus “fatos” fossem dados e não feitos e disputados em sentido por relações de poder; como se sentidos e valores não fossem “eventos” que criam percepções sobre o que é “fato” nesse tipo de assunto tão disputado, que coloca em choque, no interior do capitalismo, dois fundamentos centrais desde a segunda metade do século XIX: “o direito à propriedade”(via liberal) e o “direito à sobrevivência”(via socialdemocrata). 

Atualmente, o jogo financeiro especulativo mundial e seus acólitos se pensam como “fatos”, como a ordem natural das coisas, como deus fora da máquina. Estão convencidos disso. Por isso, não veem crueldade no que fazem ou propõem, simplesmente protegem o tipo de civilização que consideram a única possível, embora haja os cínicos entre eles que simplesmente gostam de parasitar o jogo da melhor forma possível. Contudo, todos vão colocar a dívida pública não na conta do jogo financeiro especulativo sustentado pelo Estado, mas nos “gastos sociais excessivos”. 

O Estado do capitalismo financeiro flexível usa os impostos para manter o jogo especulativo falsamente sustentável com taxas de juros favoráveis ao grande especulador. É este mesmo Estado que lança títulos de dívidas públicas com retornos bem atraentes (por vezes, 100%) para os investidores mais ricos, mas “sustenta” tal jogo com impostos, com títulos menores de renda fixa e com a poupança da maioria de seus cidadãos. Enfim, é este mesmo estado que faz licitações bem amigáveis, acessíveis apenas aos grandes empresários. 

Todo o sistema financeiro-especulativo assim naturalizado pelos economistas tecnicistas funciona em desfavor da maioria que não tem acesso às tais oportunidades de investimentos sustentados pelo Estado. É um jogo para poucos e, portanto, concentrador. Então, é como se a maioria, na Grécia, estivesse agora sendo punida em nome de uma receita de austeridade bem conhecida na América Latina desde a década de 1990, e que mantém o jogo especulativo e concentra renda em desfavor da maioria que não participa do jogo como lobo, mas apenas como ovelha tosquiada com acesso limitadíssimo ao pasto. 

Ora, se continua havendo alta concentração de renda no mundo em poucas corporações mundiais, se o pacote da privatização está sempre no horizonte, se a qualidade geral da vida não melhora com a “austeridade”, mas apenas a concentração de renda, alguém anda mentindo muito mal, ou supondo-nos idiotas.
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“Dividocracia/Debtocracy” (2011)


“Catastroika” (2012)


“Poder em Roda Livre” (2015)

sexta-feira, 10 de julho de 2015

O Brasil como protagonista mundial: Seus parceiros e suas perspectivas (3/3)

Marcos Belmonte

Os blocos regionais podem gerar ótimos dividendos para os envolvidos, como também ser onerosos e por vezes perniciosos se não fore, tratados com o devido estudo e cuidado estratégico. Há muitos exemplos: A infraestrutura da União Europeia é invejável, mas o euro – apesar de ainda estar com a cotação maior que o dólar – tende ao declínio pela desigualdade dentro das próprias economias do bloco; o fluxo de exportação e importação deu um salto qualitativo na constituição da Área de Livre Comércio da América do Norte, mas essa integração fez das economias dos parceiros dos EUA quase parasitária do centro crítico além dos problemas de excessiva cedência de poder decisório dentro de seus territórios em virtude da segurança central. Agora: os países que orbitam a China, dentro da OCX e Ásia num geral, estão a mercê de destinos semelhantes? E com o MERCOSUL? E a ALADI? Afinal de contas, se o bloco se estrutura tendo como centro gravitacional o Brasil, há esse risco? Há benefícios? 
São números que realmente precisam melhorar, pois a média corrente é de 3.875.828.537 e o total corrente comercial com toda a América Sulista é de somente 682.145.822.565. Só nosso total corrente com os Estados Unidos, mesmo antes de acabar o ano de 2014 já havia ultrapassado esse montante em cerca de vinte bilhões. São doze países é só possuímos esse total. A Argentina é disparada o parceiro com maior fluxo comercial e a grande responsável para essa média não ser ainda mais diminuta. Nossos piores fluxos comerciais são de fato com as Guianas – especialmente a Francesa – Suriname e com o Equador; os maiores são com a Argentina, Chile e Venezuela[1].

Mas esses números não seriam o suficiente para desenvolvermos novos parceiros com maior potencial de fluxo e que consumissem nosso atual maior potencial comercial: o mercado de commodities, ou seja, as grandes potências industriais? O MERCOSUL não é um mercado sem grandes perspectivas e está recebendo mais atenção do que devido? Talvez deveríamos fazer outra pergunta: Se o MERCOSUL é um mercado tão sem perspectivas, porque a superpotência estaria tão interessado nele? Pode não parecer imediatamente óbvio, mas o Brasil deve investir, e muito, no Mercado Comum do Sul, pois, os olhos do mundo se voltam para sua potencialidade, não só de consumo e fornecimento de setor primário poderoso, pois, países como o Brasil possuem potencial hídrico possante e agora a provável maior reserva de petróleo do mundo, o pré-sal, assim como Venezuela com seu petróleo, a Argentina com forte mercado primário e ponto estratégico para o polo sul (...). Ou seja, é preciso visão dos governantes para desenvolver o MERCOSUL e a América Latina de um modo geral. Mercado Comum do Sul – e a AL de forma geral - precisa ser reforçado, mas é preciso também que seus membros – e o próprio bloco – estruturem condições com outros blocos e países com intuito simbiótico, onde, precisamos desenvolver tecnologia e nosso setor secundário -, assim como a China de Deng com os EUA, pois, não podemos ser só consumidores de economia primarizada -, e essa troca pode ser feita em condições a nos favorecer – visando desenvolvimento infraestrutural -, pois, também, temos poder de barganha – mercado e commodities -. Pensem no potencial de investimentos brasileiros como Pasadena e o Porto De Mariel, agora que a China – nossa parceira – vai abrir o canal na Nicarágua, com bem mais potencial que o do Panamá, e com uma concessão de um século! Os RICS estão desenvolvendo parcerias com a América Latina; o Japão também está; a parceria com a União Europeia se desenvolve e etc. Essa intencionalidade objetiva desenvolvimento da região[2] e isso é preocupante para a superpotência.   
"A cooperação com a UE e a Ásia, por seu turno, tem sido duramente atacada pelos Estados Unidos. Tal situação pode ser inferida do discurso do presidente Clinton ao Senado, no início de 1997, quando foi pedir a aprovação do Fast Track: “Precisamos agir, expandir as exportações para a América Latina e a Ásia, as duas regiões que crescem rapidamente, ou ficaremos para trás à medida que essas economias fortalecem seus laços com outros países”. Ou seja, integração com os EUA significa tornar-se importadores de produtos norte-americanos. Em depoimento a uma subcomissão do Senado, a Secretária de Comércio Charlene Barchefsky declarou que “o interesse que desperta o Mercosul, não só na América do Sul e no Caribe, mas também na Europa, no Japão e na China, é (por nós) percebido como uma ameaça aos interesses comerciais e à própria liderança dos Estados Unidos no hemisfério”[3].

De fato esse desenvolvimento estrutural está acontecendo de maneira lenta, isso porque todos os países foram afetados pela grande crise de 2008-2009. Os investimentos externos foram rigorosamente diminuídos devido aos efeitos perniciosos dessa recessão. Mas esse processo parece recuperar fôlego, e vemos isso mais nitidamente após a VI Cúpula dos BRICS em Fortaleza-Brasília, onde, propostas para novos rumos da economia mundial foram aventadas e projetos foram estruturados. Os BRICS também fizeram um tour pela América Latina assinando acordos bilaterais com o bloco – e individualmente -, além de outros países da OCDE. A recuperação é lenta, mas contínua. Apresenta avanços e recuos – no âmbito comercial, superávit e déficit -, mas, como notaremos no gráfico, recuos bem menos agudos, como quando no start da crise.   
Os números mostram que a preocupação dos Estados Unidos com relação aos destinos comerciais do Mercado Comum do Sul demonstram-se realidades 17 anos depois das declarações no governo Clinton. Sobre o gráfico, decidimos não colocar nos números os negócios comerciais do MERCOSUL com os blocos e regiões apontados no mesmo, já que o PIB brasileiro é responsável por mais de 60% do PIB da América do Sul e é, portanto – nesse aspecto -, a liderança que praticamente puxa o leme dos destinos do subcontinente. A Ásia, como nosso maior parceiro comercial, tem uma média anual dentro do século XXI de fluxo nas balanças comerciais de 72.671.342.755 e um total corrente de 1.090.070.141.326; com a UE, como já vimos, a média é de 62.609.098.593 e com total de 939.136.478.897; Com a América Latina temos média de 53.847.315.611 e total de 807.709.734.167; EUA aparecem com média de 42.091.585.338 e total de 631.373.780.074; África tem média de 16.827.309.289 e total de 252.409.639.342; por último tem o Oriente Médio, com uma média de 10.678.714.861 e um total de 160.180.722.912. O continente africano tem baixo fluxo comercial com o mercado brasileiro, assim como a América Latina[4], mas são consideradas áreas absolutamente estratégicas – AL sendo vizinhos de fronteira e África como a outra margem do atlântico sul “pré-sal e etc” -, pois, se agora há baixo fluxo comercial, é justamente nessas regiões que nosso comércio tem plena potencialidade de crescimento, tendo a África, especial potencial para consumir nossos produtos do mercado secundário. Outros índices podem demonstrar os fluxos comerciais brasileiros – déficit e superávit - com os parceiros no gráfico acima
Percebemos que nossas relações com os blocos e regiões de caráter profundamente estratégico – e mais perto de nossas fronteiras – necessitam de maior atenção e estruturação de relações – como as comerciais – mais intensas, para que, num médio prazo, a integração e cooperação sejam profícuas para ambos os envolvidos visando a formação de uma aliança forte contra as dificuldades provocadas pelos sucessivos momentos de crise internacional. Vizinhos que se apoiam uns nos outros – não de forma parasitária, mas simbiótica – sempre buscam caminhos para o mantimento da paz em suas fronteiras e é essa uma grande parte do plano. Projetos de benefícios comuns precisam ser constituídos – não nos moldes da Rota da Seda do XXI – dentro de nossas atuais realidades – limitadas momentaneamente -, para tornar mais concreta a intencionalidade de cooperação e integração regional. MERCOSUL, ALADI, UNASUL e IBAS são blocos regionais que necessitam de mais ação para fortalecê-los, como a ligação energética estruturada entre os membros da Organização de Cooperação de Xangai. Hugo Cháves propôs a construção de uma pipeline que transpassaria o Brasil – fornecendo gás natural venezuelano – que visava os demais membros do subcontinente, mas entraves surgiram e, ao que parece, o projeto está engavetado momentaneamente, mas que pode ter possibilidades de desarquivamento. Ações com esse caráter estratégico precisam surgir nos próximos anos pelas suas próprias potencialidades de integração, claro, após serem devidamente acordadas buscando benefício mútuo e fortalecimento da região. 

Grandes desafios estão no horizonte agravados por mais uma crise da atual gestão do capitalismo e, por vezes, essas alianças estratégicas parecerão onerosas e perniciosas para as economias em maior desenvolvimento, como o caso do Brasil na região, mas perguntas devem ser feitas antes de darmos ouvidos para o contra-ataque desmedido que nunca faz pensar, mas vociferar com base insinuações histéricas, como as grandes mídias brasileiras contra o Mercado Comum do Sul e o tal “bolivarianismo”. Uma boa pergunta seria: Para quem interessa que o Brasil rompa com o MERCOSUL, ALADI, UNASUL, IBAS e atribuir menor importância para os BRICS? Pelo que entendo, essas ações podem ser de interesse de muitos envolvidos, menos do Brasil. Basta pensar.

Notas: 
[1] A entrada da Venezuela no Mercado Comum do Sul vem sendo tratada há algum tempo. Desde  sua adesão foi assinada em 2006 e em vigor desde agosto de 2012. O Paraguai era o grande obstáculo a entrada do país no bloco. Contudo, com o “golpe soft” aplicado contra o governo eleito de Lugo, o país ficara com restrições dentro do bloco e perdera a força que vetava a entrada definitiva da Venezuela. Decidimos deixá-la no gráfico junto aos outros membros do MERCOSUL para termos ideia do fluxo comercial entra o país e o Brasil. O documento de adesão pode ser encontrado em http://mdic.gov.brsitio/interna/interna.php?area=5&menu=4124

[2] “Como não poderia deixar de ser, os resultados bastante positivos no campo econômico no Mercosul, e a colaboração com os outros núcleos de integração, num quadro de crescente competição econômico-tecnológica no Norte, tem levado a crescentes divergências com os EUA. mas não se trata apenas de constante ampliação das relações comerciais intra-Mercosul, mas também de outros elementos, como uma integração pela base. Além disso, parece ficar cada vez mais claro que o Mercosul tem como objetivo implícito a manutenção de uma base industrial dentro de seu território, criando condições para que as empresas transnacionais permaneçam aqui”.-  VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. O Brasil, o MERCOSUL e a integração da América do Sul. P. 97. In: [org] WIESEBRON, Marianne; GRIFFITHS, Richard T. Processo de integração regional e cooperação intercontinental desde 1989. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2008. 

[3] Ibid.

[4] Ainda sim, a América Latina registra fluxo corrente comercial com o Brasil 21,9%- média e total corrente - a mais que o fluxo norte-americano no mesmo período.

[5] Cobertura refere-se à quantia total de exportações dividida pelas importações. Caso seja positivo (≥1), a balança também assim o é, e vice-versa. 

[6] Dados da balança comercial brasileira com os países, continentes e blocos recolhidos no site do ministério do desenvolvimento. www.desenvolvimento.org.br

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O Brasil como protagonista mundial: Seus parceiros e suas perspectivas (2/3)

Marcos Belmonte
A China como a economia mais dinâmica e pungente do mundo e centro dos BRICS, até o ano passado (2014) se via – ou pelo menos disfarçava seu status de protagonista – como um país em desenvolvimento e não como uma potência estabelecida. Na história recente, mais visível no governo de Deng Xiaopping, a China sempre se manteve o mais afastado possível dos holofotes que iluminam EUA, UE, e Japão. Quanto maior a discrição na atuação chinesa no seu desenvolvimento econômico, melhor. Quando do grande crescimento econômico das políticas de Deng, esse fazia questão de alertar que a China não poderia se tratar de uma grande potência mundial, mesmo com seu crescimento. Ele dizia que o crescimento da China poderia parecer colocar a mesma numa condição de potência, mas não passaria de uma análise equivocada pelo fato de que a China possuía a maior população mundial e uma agressiva desigualdade social. Para Deng, era preciso sanar esse grave problema social, junto ao déficit tecnológico, para que a China começasse a querer ser tratada como potência. Essa mesma postura seguiu também durante o governo de Hu Jintao.

“Segundo o padrão de vida de um dólar por dia estabelecido pelas Nações Unidas, a China possui hoje 150 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Mesmo baseado no padrão de pobreza e renda per capita de 1.200 yuan, a China ainda tem mais de 40 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. No presente, ainda há 10 milhões de pessoas sem acesso a eletricidade, e a questão de empregos para 24 milhões de pessoas tem que ser resolvida a cada ano. A China possui uma imensa população e uma fundação fraca, o desenvolvimento entre a cidade e o campo é desigual, a estrutura industrial não é racional, e o subdesenvolvido estado das forças de produção não mudou fundamentalmente”[1]. 

Contudo, essa postura está enfraquecida pela própria percepção – interna e externa – de que a China ocupa um lugar diferente no rumo da política econômica do planeta. Sua importância é rigorosamente inegável. Sua potencialidade dentro dos BRICS e na economia mundial, mais visível nos anos pós crise de 2008-2009, desperta preocupação da grande superpotência norte-americana. O próprio BRICS sofre – incluindo a China –com ações dos EUA e das grandes potências da OTAN que visam claramente desestabilizar o bloco, com atenção especial contra Rússia[2]. E isso não passou pela China sem que essa notasse[3].

“Em outras palavras, embora o relacionamento com os EUA vá continuar como mais alta prioridade, por causa do poderio militar e financeiro dos EUA, deve-se esperar ver uma China cada dia mais ativa contra o que vê como interferência dos EUA. É novidade que já se viu claramente em outubro, quando o jornal People Daily do Partido Comunista Chinês publicou editorial, durante a ‘revolução dos guarda-chuvas’ em Hong Kong, que interrogava “Por que Washington tanto se interessa por revoluções coloridas?” O artigo citava nominalmente, como envolvida naquela 'operação', a ONG National Endowment for Democracy, dedicada a 'mudanças de regime' pelo mundo e mantida pelo vice-presidente dos EUA. Esse tipo de denúncia direta era impensável há seis anos, quanto Washington tentou criar problemas para Pequim insuflando protestos violentos do movimento do Dalai Lama no Tibete, pouco tempo antes dos Jogos Olímpicos de Pequim de 2008”[4].

A postura da China é diferente hoje. Um país com uma história milenar voltada para dentro de si; que tratava as outras culturas como bárbaras, que sofreu com invasões diversas, que sempre se viu como centro do universo, “o reino do meio” (...) agora precisa assumir o seu protagonismo mundial e mexer com a própria mentalidade de seu povo para assumirem esse lugar com seu interno conciso e forte.  Existe o problema de a economia brasileira depender exclusivamente, pelo menos grande parte dela, da China, mas é um mercado com fôlego suficiente para manter seu crescimento até 2050. Será de fato o século da Ásia, e será com certeza o século chinês. Portanto, ter um parceiro dessa magnitude dentro dos BRICS é de grande benefício para seus integrantes, apesar da atual desigualdade no âmbito da potencialidade comercial, industrial, financeiro e militar e sérios problemas sociais internos dos membros. Fatos, esses, que fazem os críticos das aspirações dos BRICS à reforma da governança global atuarem, dentro das suas esferas de ação – mídia, especialistas, economistas, políticos e etc. – contra o bloco ou atribuir-lhe menor importância. Contudo é preciso análise mais aprofundada para se ter melhor panorama para emitir semelhantes opiniões.

Apesar das debilidades internas e limitações externas são apontadas como indicadores de que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul não reúnem as credenciais necessárias para aspirar à condição de integrantes do grupo de países líderes da ordem mundial. Aqui cabe ressaltar alguns aspectos históricos relevantes. O primeiro deles demonstra que, quando a Inglaterra e, mais de um século depois, os EUA se tornaram lideranças mundiais, viviam situações internas caracterizadas por grandes dificuldades sociais e desequilíbrios. Basta ler os romances de Charles Dickens para ter uma ideia do que era a Inglaterra durante sua revolução industrial. O cinema, por sua vez, nos mostra uma América dominada por gangsters justamente quando os EUA se convertiam em primeira potência mundial. Portanto, há que refletir melhor quando se apontam as incapacidades das nações integrantes dos BRICS[5].    

A Inglaterra teve seu momento de liderança. Os Estados Unidos ainda são líderes do atual capitalismo. A China será a líder do futuro em curto e médio prazo. Mas apesar desse protagonismo chinês, os demais membros dos BRICS estão desenvolvendo seu próprio protagonismo regional. A Rússia está se impondo como líder da Eurásia; a China se põe como líder da OCX[6]; a Índia se apresenta como liderança do sudeste asiático; a África do Sul é a maior economia da África e líder no continente; e o Brasil se apresenta como líder do MERCOSUL e UNASUL. Os BRICS enquanto conceito do mercado financeiro ocidental, que mais tarde passa a qualidade de fórum de discussão, e, finalmente, para bloco político-econômico institucionalizado com melhores perspectivas de crescimento no médio prazo, também se apresenta como bloco que se forma de modo inter-regional, sem ser um bloco que se iniciou motivado pela mesma razão, acaba por abraçar as principais potências de blocos políticos-regionais poderosos, como a própria OCX e o IBAS.

No caso brasileiro, um dos grandes desafios é ser um protagonista da estratégica América do Sul, ou seja, não só do MERCOSUL, mas sim da ALADI. Se o Mercado Comum do Sul vai ser assimilado pela ALADI, ou se a ALADI que será assimilada, ou se ambos os blocos se estruturarão harmoniosa e concomitantemente não temos como saber e não convém especular aqui sobre algo tão importante. O que o Brasil precisa é se tornar o líder da região como um todo e ser aceito pela própria região como tal. Contudo, é preciso ter o chamado “jogo de cintura” para lidar com questões delicadas dentro de um bloco que, não raro, é palco de disputas e/ou contendas entre ambos, tais como a situação frágil da nacionalização do petróleo por Evo Morales na Bolívia e que assimilou para seu Estado fortes investimentos da Petrobrás em seu país contratados anteriormente entre La Paz e Brasília, assim como os entraves com a Argentina sobre a pretensão brasileira a uma cadeira fixa no Conselho de Segurança das Nações Unidas. É preciso que essa liderança e protagonismo sejam pactuados. 

No entanto, podemos notar aparente contradição, pois, o que os BRICS almejam é um mundo multipolar onde todos os estados tenham voz e pratiquem políticas - como diria Xi Jinping, presidente da China – de “ganha-ganha”. Não que esse protagonismo e liderança seja devido a uma espécie de imperialismo brasileiro que se impõe devido ao país ser a grande potência da região e – por esse fato – ele se impõe como liderança natural, pois um bloco formado e inspirado nos pontos de Bandung e no G77 se mostraria contraditório por permitir que isso acontecesse. Óbvio que essa liderança é forjada de várias maneiras no âmbito político, comercial, financeiro, militar e etc. Só não se pode negar o peso brasileiro dentro da região e do bloco, como não se pode negar o peso chinês e russo na Ásia Central, da Índia no sudeste asiático, da África do Sul em África, dos EUA na América do Norte, da Alemanha na Europa etc. Talvez, dentro de todas essas nuances que sustentam a política e ideologia de Bandung, liderança e protagonismo não sejam os conceitos mais adequados, e sim, “porta-voz” regional. Também é necessário que todos os países do bloco – ou dos blocos – regional estejam com as mesmas prioridades políticas e estratégicas para a integração e cooperação na região. Hoje, lideranças políticas vinculadas com os ideais do centro para a esquerda, essa perspectiva pode se tornar mais “realizável”, caso contrário, blocos como o NAFTA, Aliança do Pacífico, União Europeia e até a ressurreição da ALCA seriam preferidas ao MERCOSUL, ALADI, BRICS, IBAS e etc., algo que se tornaria um erro estratégico crasso tomado por lógica unicamente financeira – variável conforme centro do capital – e não política – estruturação de alguma região que não se apresenta imediatamente como grande e principal fonte de potencial econômico, mas sim, como algo com potencial a ser construído -. 

O que nos leva a contradição da própria criação dos BRICS, nascido esse conceito inter-regional com capacidade de forte desenvolvimento e investimento de capital e nada politicamente estruturado, posto que os blocos regionais nascem – via de regra – como impulso político para sua estruturação visando desenvolvimento econômico posteriormente. Trata-se, então, os BRICS de uma instituição voltada para o lado financeiro, pela própria potencialidade de seus membros, e se apresentar como uma espécie de ameaça aos blocos regionais tornando-os secundários em termos de importância? Não creio, pois, os blocos regionais – que se forjaram antes e depois dos BRICS – são estratégicos.

É realmente mais rentável e menos oneroso – ou sem grande risco – estabelecer negociações com vizinhos fronteiriços do que com parceiros além mar. Um exemplo clássico foi a situação do Ramo-sul russo para a Europa, onde o velho mundo tornou insustentável – forçado pelos EUA – o fornecimento de gás natural russo pra Europa, em contrapartida terrivelmente infeliz e contraproducente, substituiu uma pipeline segura da vizinha Rússia para se abastecer do gás transportado por navios dos EUA enquanto não se resolve as contendas no Oriente Médio para abastecer de gás – dos aliados norte-americanos - o velho mundo. E assim as relações comerciais entre os estados nacionais que precisam escoar e/ou importar suprimentos de além mar sempre serão mais dispendiosos do que relações mantidas com vizinhos. Blocos regionais possibilitam ligações infraestruturais mais profícuas, maior possibilidade de conexão política e cultural, maior potencialidade de constituir uma área de segurança e etc., assim como a integração do NAFTA – onde a América do Sul possui projeto similar de integração “IIRSA[7]” que recebe apoios e críticas -. Não estou querendo dizer para se fazer um Tratado de Livre Comércio como na América do Norte, onde Canadá e México realmente tiveram algumas vantagens por ter uma superpotência no bloco, até porque, existem problemas sérios para os parceiros dos EUA no agrupamento regional; nem muito menos estou dizendo que a segurança anda de mãos dadas com a prosperidade, assim como George W. Bush. Mas a possibilidade de um bloco regional coeso, seguindo essa lógica de integração, se devidamente compactuada, é desejável.

Notas:

[1] KISSINGER, Henry. Sobre a China. Tradução Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011, p. 502.

[2] Como a desvalorização do rublo, como o congelamento de capital russo na Europa, como a patética proibição de algumas personalidades russas de entrar nos EUA, como a tentativa frustrada – até agora – de colocar bases da OTAN na Ucrânia, como o governo nazista ruusofóbico de Petro que fez com que a Rússia rompesse com o fornecimento de gás natural para Europa e, o frequente bombardeio da imprensa-empresa ocidental demonizando Putin. 

[3] Agora, em plena guerra total que Washington faz contra o rublo russo, a China anunciou que está pronta para, se solicitada, ajudar seu parceiro russo. Dia 20/12/2014, em meio a uma queda histórica na cotação do rublo em relação ao dólar, o Ministro de Relações Exteriores, Wang Yi, disse que a China proverá ajuda à Rússia, se necessária, e tem confiança de que a Rússia conseguirá superar suas atuais dificuldades. Ao mesmo tempo, o Ministro do Comércio, Gao Hucheng, disse que expandir uma operação de swap de moedas entre as duas nações e fazer uso mais amplo do yuan no comércio bilateral são operações que, com certeza, darão grande alívio à Rússia. - Retirado do artigo: Mudança na política da China para o mundo. Disponível em Redecastorphoto

[4] Ibid.

[5] VISENTINI, Paulo Fagundes. A dimensão político-estratégica dos BRICS: entre a panaceia e o ceticismo. In: Mesa-Redonda: O Brasil, os BRICS e a agenda internacional / Apresentação do embaixador José Vicente de Sá Pimentel. – Brasília: FUNAG, 2012, p. 201.

[6] Da qual a Rússia é membro e a Índia é “membro observador”.

[7] Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana. Esse projeto recebe apoio de parte das sociedades dos estados envolvidos pelos benefícios comerciais e de lojística que poderia propiciar. Contudo, outra parcela critica veementemente essa integração porque em alguns caso, as rotas estabelecidas pelo IIRSA afetaria regiões de populações indígenas dentre outros povos e/ou populações historicamente habitantes dos locais de passagem do projeto. 

sábado, 27 de junho de 2015

O Brasil como protagonista mundial: Seus parceiros e suas perspectivas (1/3)

Marcos Belmonte
O Brasil passa por um momento histórico nunca visto antes, pois está se tornando um protagonista na política e economia mundial de maneira decisiva, envolvido com blocos e parceiros que estão propondo – ou revitalizando - um novo modelo de governança, ao mesmo tempo em que atua com os velhos blocos e potências que levaram o mundo para mais uma crise. Mas o Brasil tem e faz parte de um projeto que busca renovação. Mas dificuldades existem para a realização de intento. Como agir?
É sabido de todos que o acrônimo BRICS começou como um fórum econômico e que no novo século adquiriu importância política, passando a ser um bloco político econômico potente e institucionalizado com a homologação do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) e dos fundos de emergência, que demonstra bom potencial para “contrabalancear” as instituições do Atlântico Norte, como o FMI. Não há nenhuma atitude revolucionária – nos termos comumente conhecidos – mas sim, basicamente reformista, apesar de que, se fazermos uma comparação entre o domínio do Norte (colonizadores) sobre o Sul (colonizados) possa até ter uma pitada “revolucionária”, mas é muito mais aparência do que de fato uma realidade. Porém não podemos negar em nenhum momento sua importância no cenário econômico mundial, no presente e no futuro. Para o Brasil, o bloco tem significativa importância.

"O bloco BRICS é uma realidade. É um grupo de países que perseguem objetivos comuns. O Brasil certamente tem interesse em apoiar os BRICS e fazer avançar a cooperação com todos os seus membros, construir alicerces mais fortes com base nas semelhanças e convergências, estimular a troca de informações e desenvolver consultas e cooperação em áreas específicas (...) Os BRICS são muito importantes para a política externa e para a sociedade brasileira, para os formuladores, para os operadores e para os que pensam a política externa"[1].    
Atentemos aos números do comércio do Brasil com os BRICS, individual e coletivamente:
Os números demonstrados na tabela acima são contundentes[5] e mostram o sucesso das relações comerciais [6] brasileiras com os outros BRICS. Poucas vezes tivemos uma balança negativa nesses primeiros 15 anos de negociações no século XXI. Com a Rússia temos somente um momento de balança negativa; com a China tivemos três momentos; a Índia representa nossa maior balança negativa distribuída em 10 momentos; diferentemente acontece com a África do Sul, onde sempre tivemos balança positiva. Os volumes dessas negociações são também bastante relevantes. Óbvio que nosso relacionamento intra-BRICS teve grande poder devido à China, epicentro magnético do bloco e motor da economia mundial. Todavia nossas negociações comerciais precisariam ser diversificadas.

"(...) [há] crescente demanda chinesa e indiana por commodities agrícolas e minerais. Ao mesmo tempo em que é fundamental utilizar o acesso ao mercado brasileiro como moeda de troca nas negociações, a maior dependência da pauta exportadora primária pode aumentar a vulnerabilidade eterna estrutural da economia brasileira, especialmente em um provável momento de queda de preços agrícolas, sujeitos à volatilidade das bolsas financeiras mundiais. O que reduz esse risco é a permanência da demanda dos BRICS por alimentos, especialmente a da China, mas não se pode deixar de observar que esse é um atenuante completamente alheio ao controle da soberania brasileira" [7].  

Doravante, mesmo com esse “problema econômico estrutural” dentro do fluxo comercial intra-BRICS, os números são relevantes. Com a China tivemos um menor volume de exportação, de 1.085.301.597 [8] e a importação de 1.222.098.317 nos anos 2000, tendo um total corrente de 2.307.399.914. Já o maior volume de exportação foi um total de 46.026.153.046 e importações de 37.303.567.344, no ano de 2013, fazendo um total corrente de 83.329.720.390. Com a Rússia tivemos um menor volume de exportação, de 422.966.725, e a importação de 570.695179 nos anos de 2000, tendo um total corrente de 993.661.904. Já o maior volume de exportação foi de 4.652.978.889 e importações de 3.332.050.061, nos anos de 2008, fazendo um total corrente de 7.985.028.950. Com a África do Sul tivemos um menor volume de exportação de 302.226.889 nos anos 2000, e a importação foi de 181.667.025 em 2002, tendo um menor volume corrente de 529.989.458 em 2000. Já o maior volume de exportação foi de 1.836.354.221, em 2013, e importações de 911.920.031, em 2011.

No ano de 2012 temos o maior total corrente, de 2.614.045.186. Com a Índia tivemos um menor volume de exportação de 217.450.483 e a importação foi de 271.355.071, nos anos 2000, fazendo um menor total corrente de 488.805.554. Já o maior volume de exportação foi de 5.576.930.397 em 2012 e importações de 6.357.566.624 no ano de 2013. O maior total corrente foi de 11.424.577.573 em 2014.  Se observarmos os números com todo o bloco BRICS, tivemos um menor volume de exportação de 2.027.945.694 e a importação de 2.291.911.136 nos anos 2000. Já o maior volume de exportação foi de 53.966.725.105, em 2013, e a maior importação foi de 47.727.423.677, em 2014. O maior total corrente foi de 101.023.780.761 em 2013. Se atentarmos para a média de volume corrente dentro do século XXI, temos um total de 45.654.779.888 e uma soma total corrente de 684.821.698.293. Todavia, o bom nível dos totais correntes do Brasil com os BRICS é potencialmente devido à balança comercial sino-brasileira.

Gráfico (1[9]) com os volumes totais correntes comerciais anuais

Ainda sim, mesmo com esses números, rata-se de um grupo que precisa explorar melhor as possibilidades de investimentos diretos e relações comerciais com o Brasil. Por exemplo, o BRICS ainda tem números inferiores aos da UE, com a qual temos dentro do XXI uma média do total corrente de 62.609.098.593 e soma total corrente de 939.136.478.897; com o NAFTA temos uma média de 52.314.354.716 e total corrente de 784.715.320.737.  Da mesma maneira, o Brasil precisa intensificar suas relações comerciais com os MERCOSUL, que teve média total de 27.401.996.263 e um total corrente de 411.029.943.938. Algumas dificuldades de desenvolvimento de média e alta tecnologia, bem como potencial de manufatura podem estar travando essa integração comercial estratégica para o Brasil e o bloco do Mercado Comum do Sul. Contudo, os acordos bilaterais com os países dos BRICS e outros maiores desenvolvedores de alta tecnologia podem começar a dar ao Brasil esse potencial.

Gráfico (2) com os volumes totais correntes comerciais anuais

Como podemos notar no gráfico, o MERCOSUL é o parceiro com menor total corrente comercial desde 2000. Contudo, vemos que os BRICS foram o bloco no qual nossas negociações comerciais mais cresceram, inclusive nos imediatos anos depois da crise. Todos tiveram queda nos anos de 2008-2009, o start da pior crise econômica desde 1929. NAFTA e UE no início do século XXI eram os maiores parceiros, mas em 2014 os BRICS tomam a ponta nas negociações tendo o maior total corrente, com a UE como segundo maior parceiro comercial e o NAFTA – que teve maior queda no início da crise - em terceiro lugar, com o dobro do total corrente do MERCOSUL. 

Notas: 
[1] AMARAL, Sérgio. O Brasil, os BRICS e a agenda internacional. In: Mesa-Redonda: O Brasil, os BRICS e a agenda internacional / Apresentação do embaixador José Vicente de Sá Pimentel. – Brasília: FUNAG, 2012, p. 301.
[2] Cobertura refere-se à quantia total de exportações dividida pelas importações. Caso seja positivo (≥1), a balança também assim o é, e vice-versa.
[3] Dados da balança comercial brasileira com os países dos BRICS recolhidos no site do ministério do desenvolvimento. 
[4] A África do Sul entrou para os BRICS em 2010.
[5] Entendemos que são números significativos que demonstram evolução nas relações entre os BRICS (fluxo intra-BRICS) apesar de não serem todos os maiores parceiros brasileiros e com certos membros haver uma balança comercial realmente pequena ainda, como com a África do Sul.
[6] O grifo é para apontar que estamos tratando diretamente das relações comerciais e não falamos em outras formas de investimento financeiros, industriais etc. como os do IDE (investimento externo direto). 
[7] POCHMANN, Márcio. Relações comerciais e de investimentos do Brasil com os demais países dos BRICS. In: Mesa-Redonda: O Brasil, os BRICS e a agenda internacional / Apresentação do embaixador José Vicente de Sá Pimentel. – Brasília: FUNAG, 2012, p. 147.
[8] Todos os números indicando o valor das negociações são em dólares.

[9] Apesar de a África do Sul ter entrado de fato para o bloco em 2010, decidimos por apontar seus totais correntes anuais com o Brasil para termos ideia da trajetória comercial dentro do XXI. A título de fluxo intra-BRICS, devemos considerar só a partir de seu ingresso no grupo.